Ariane Melo e Izabela Murici*

Pode parecer precipitado falar de um cenário futuro para a educação neste momento em que a crise no segmento pode estar atingindo seu ponto mais crítico. Segundo dados da UNESCO, até o dia 26/04/2020  mais  de  90%  dos  alunos  no  mundo  haviam  sido  impactados  pelo  fechamento  das escolas, algo nunca antes imaginado. Vivenciamos, em um curtíssimo espaço de tempo, inúmeras adaptações nos processos educacionais e administrativos e sabemos que há ainda muitas outras por vir.  Esse  movimento,  contudo,  não  deve  ser  interpretado  como  um  ajuste  emergencial.  Temos diante de nós a oportunidade de aproveitar todas as mudanças que já estão em curso e criar a nova educação que queremos.

E  por  que  essas  mudanças  irão  trazer  impactos  duradouros?  Em  primeiro  lugar,  a  vacina  para  a COVID-19 não estará disponível nos próximos meses e, em nosso primeiro “novo normal” haverá um   espaço   de   convivência   mais   limitado,   impactando   diretamente   o   ambiente   escolar.   As ferramentas digitais, até agora colocadas como elementos de apoio ao processo educacional, serão aliadas  na  construção  dessa  nova rotina  e  permitirão  que  os  estudantes  retomem  suas  atividades gradualmente e em segurança.

Além  disso,  a  cada  extensão  das  medidas  de  isolamento  há  um  aumento  da  carga  horária  a  ser reposta,  uma  vez  que  estão  mantidas  as  800  horas  para  o  ano  de  2020.  Soluções  relacionadas apenas ao ajuste do calendário escolar certamente não serão suficientes para recompor essa perda. O plano de retomada passará, necessariamente, pela combinação das aulas presenciais com outras modalidades de ensino e demandarão novas atitudes, dos professores, dos alunos e dos pais.

Essa mesma pressão de mudança será observada no mercado de trabalho. A crise sanitária que vivemos remodelará o modo como atuamos e demandará novos perfis de trabalhadores. Aqueles que estiverem mais preparados para atuar no mundo VUCA (volátil, incerto, complexo e ambíguo) serão mais bem-sucedidos que os demais. As instituições de ensino precisarão responder a essa demanda muito rapidamente, sob pena de se tornarem irrelevantes em um curto espaço de tempo.

Por último destacamos a profusão dos cursos via EaD para os mais variados assuntos. Certamente muitas pessoas estão percebendo, durante o período de isolamento, que não precisam de uma sala de aula para avançar em sua formação.

Em suma, estruturas que sustentavam o sistema escolar foram abaladas e as mudanças que já estão em curso remodelarão a forma como os diferentes stakeholders (professores, diretores, alunos, pais) percebem valor e se relacionam com o mesmo. Essa experiência e suas conclusões serão a base sob a qual será construída a relação da sociedade com o segmento escolar nos próximos anos.

Eis  então  que  chegamos  à  proposta  desse  artigo:  a  escola  de  2025.  Certamente  ela  utiliza  novos modelos pedagógicos e não centra todas as atividades de aprendizado unicamente no professor. O corpo docente tem uma preparação diferenciada e entende seu papel de mediador. Ele lança mão de recursos  variados  de  aprendizado,  domina  diferentes  ferramentas  tecnológicas  e  reconhece  a importância da formação continuada em um ambiente de constante transformação. As salas de aula são laboratórios de aprendizagem onde os alunos “experimentam o conteúdo”, cada um conduzindo o seu aprendizado de acordo com os seus interesses de modo ativo. Carteiras enfileiradas onde os alunos  assistem  passivos  à  aula, sem  poder  falar  ou se  movimentar  pelo  espaço, já  não  faz parte desse contexto.

Os processos administrativos são mais enxutos e estão totalmente inseridos no contexto digital. O home office é parte da rotina da equipe não por imposição, mas por se tornar uma opção viável e econômica. Os conteúdos ministrados privilegiam os conhecimentos tradicionais, matemática, português, história, porém em uma abordagem interdisciplinar. As aulas de 50 em 50 minutos, em que as pessoas não enxergam que há muita arte na matemática, já foram abolidas. Também há um espaço relevante na grade curricular para o desenvolvimento das competências do século XXI e há consenso da importância desses temas entre a comunidade escolar. A família tem participação ativa na educação dos filhos, entende o trabalho que está sendo desenvolvido na escola e consegue dar continuidade à formação integral do indivíduo em casa. Cada aluno e cada família recebem uma atenção personalizada, é possível inclusive que o aluno saia de férias da escola em qualquer período do ano sem prejuízo na aprendizagem e garantindo o cumprimento do currículo.

Já imaginou tudo isso?! Como todo exercício de futurismo, há muitas hipóteses nos parágrafos anteriores que podem se mostrar verdadeiras, outras serão refutadas. Parte será amplamente implementada e outra parte, será conduzida em velocidade mais lenta ou não será adotada por todas as instituições de ensino, em razão dos obstáculos identificados. O que haverá em comum entre elas? Todas deverão ser discutidas a partir de hoje, pois, em diferentes medidas, nada será como antes! A crise já evidenciou a importância dos valores, atitudes e habilidades que promovem o respeito mútuo e a coexistência pacífica. Mostrou também, o valor da educação que contribui para a resolução dos desafios globais já existentes e emergentes que ameaçam o planeta e provou que é impossível construir soluções consistentes fora de um processo de colaboração.

Apesar de todos os desafios impostos pelo isolamento social e dos problemas sociais e econômicos que estamos enfrentando, nós temos a oportunidade de aprender com tudo isso e de criar o nosso futuro, a partir desse aprendizado, garantindo um mundo melhor para todos. Qual é a escola que vamos criar para 2025?

*Ariane Melo é consultora sênior na Falconi. Atuou no segmento de educação na iniciativa pública e privada, com foco em reestruturação dos processos e melhoria dos resultados educacionais.

 *Izabela Murici é Sócia da Falconié graduada em Administração de Empresas pela UFMG, pós- graduada em Finanças pela Fundação Dom Cabral e em Marketing pela UFMG, Izabela ingressou na FALCONI em 2000 como estagiária na Gerência de Recursos Humanos. Consultora desde 2002, atua como líder de projetos nos setores público e privado. É também co-autora dos livros “Gestão para Resultados na Educação”, “Gestão Integrada da Escola” e “Como Melhorar As Competências da Equipe Escolar Implementando a Matriz de Capacitação”.

 A Falconi Educação é um braço da Falconi Consultores voltado para desenvolver a gestão e apoiar secretarias de educação, ONGs, escolas públicas e privadas a alcançarem resultados significativos. Queremos transformar a educação, para a educação transformar o Brasil. Para mais informações acesse: falconi.com/educação.É a maior consultoria de gestão brasileira, fundada por Vicente Falconi. Reconhecida por sua capacidade de transformar os resultados e a eficiência de organizações públicas e privadas por meio de soluções em Gestão, Tecnologia e Gente. Possui um time de cerca de 700 consultores espalhados por mais de 30 países e já atuou em mais de 6.000 projetos ao longo de 40 anos de história.

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