Administrador, Economista e Bacharel em Ciências Contábeis. Presidente da ASSEMG-Associação dos Economistas de Minas Gerais.  Ex-Presidente do BDMG e ex-Secretário de Planejamento e Coordenação Geral de Minas Gerais; Coordenador Geral do Fórum JK de Desenvolvimento Econômico e Vice-Presidente da ACMinas – Associação Comercial e Empresarial de Minas e Presidente/Editor Geral de MercadoComum.

         Um país como o Brasil não pode mais continuar insistindo apenas na busca por recursos destinados a pagar a conta de salários e da previdência de seu funcionalismo e remunerar enormes quantias de recursos, a título de remuneração de sua dívida. Os investimentos, notadamente em infraestrutura básica, como consequência, tornam-se praticamente nulos e a capacidade de o Estado promovê-los, precisa ser resgatada.

       A cada dia, avolumam-se mais e mais as nossas dificuldades de crescer de forma consistente e vigorosa, exponenciando-se de forma explosiva os nossos déficits públicos reais e potenciais.  A armadilha do modelo vigente durante as últimas décadas mostra-se totalmente esgotado e requer ser desarmada.

         Neste momento em que preparo esta matéria, observo que o País começa novamente a se sentir diminuído e cabisbaixo, porque ressurgem mazelas que pareciam já pertencer ao passado. No início desta segunda semana de março, o Relatório Focus do Banco Central apontava expectativa de crescimento do PIB brasileiro para este ano de apenas 1,99%, em contraste com as de início do ano, em torno de 2,5%. Outros renomados economistas também começaram a declarar que, muito dificilmente, poderemos atingir 1,00% de expansão do PIB deste ano e, dependendo da situação econômica internacional, abalada pela guerra comercial dos Estados Unidos com a China; desavenças entre produtores de petróleo e pandemia do coronavírus – o Brasil pode entrar numa situação de depressão econômica. O próprio ministro da Economia Paulo Guedes também declarou que o crescimento do PIB, dependendo das circunstâncias internas e mundiais, também pode ficar rondando a casa do 1%.

        Esses fatos são como fantasmas de um outro tempo, que lançam nuvens negras sobre o cenário econômico, social e político do Brasil. Em tempos assim, cresce ainda mais a nossa responsabilidade diante do País.

      O presidente Juscelino Kubitschek considerava o subdesenvolvimento um terrível mal (mal que ainda vitima o Brasil nos tempos atuais), e compreendia-o como uma doença. Ele, um médico competente, dominava muito bem o processo de realização de diagnósticos, conhecia as suas técnicas e sabia da sua importância no tratamento e cura dos pacientes. Em plena campanha eleitoral, em 1955, JK já anunciava:

      “Pretender solucionar a crise brasileira com remédios prescritos para o único fim de estabilidade, como se fôssemos uma terra exausta e um povo cansado, necessitados de equilibrar as poucas forças que ainda nos restassem, é semelhante, malgrado as deformações que acarretam todas as analogias, ao intento de se tratarem as crises da puberdade com medicamentos destinados a mitigar a senectude”.

        E acrescentava:

     “Transportaram-se para o nosso País, mecânica e acriticamente, técnicas e instituições que, ou não correspondiam mais às condições de nossa época – como é o caso das correspondentes ao liberalismo europeu do século XIX, ou não se ajustaram à nossa realidade – como é o caso das que insistem em dar tratamento monetário a fenômenos que são basicamente econômicos.”

       O IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística divulgou, no início deste mês que, em 2019, o PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro cresceu 1,1% frente a 2018, após altas de 1,3% em 2018 e 2017, e de retrações de 3,5% em 2015 e 3,3% em 2016. Houve altas na Agropecuária (1,3%), na Indústria (0,5%) e Serviços (1,3%).

      Segundo estudos apresentados pelo IBGE, o PIB per capita brasileiro variou 0,3% em termos reais, alcançando R$ 34.533 em 2019. A taxa de investimento em 2019 foi de 15,4% do PIB, acima do observado em 2018 (15,2%). Já a taxa de poupança foi de 12,2% (ante 12,4% em 2018).   Frente ao 3º trimestre, na série com ajuste sazonal, o PIB teve alta de 0,5% no 4º trimestre de 2019. A Indústria e os Serviços apresentaram variação positiva de 0,2% e 0,6%, respectivamente, enquanto a Agropecuária recuou (-0,4%).

      No acumulado do ano, o PIB brasileiro em valores correntes totalizou R$ 7,3 trilhões, dos quais R$ 6,2 trilhões se referem ao Valor Adicionado a preços básicos e R$ 1,0 trilhão aos Impostos sobre Produtos líquidos de Subsídios.

OS GOVERNANTES BRASILEIROS DE DESTAQUE NO CRESCIMENTO ECONÔMICO

A ECONOMIA BRASILEIRA E O CONTRASTE DE DOIS PERÍODOS ECONÔMICOS

              Durante três décadas seguidas, compreendidas entre os anos de 1951 a 1980, o PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro registrou expansão média anual de 7,43% e acumulada de 748% – ou seja, a economia brasileira multiplicou de tamanho em 7,5 vezes. Em nenhum ano desse período constatou-se retração ou queda do PIB.

      Já no período posterior de quatro décadas, compreendidas entre os anos de 1981 a 2020, o PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro deverá registrar expansão média anual de apenas 2,2% e acumulada de 131,89%, ou seja, a economia brasileira multiplicou de tamanho em 1,3 vezes. Enquanto isso, nesse mesmo período, a economia mundial apresentará crescimento médio anual de 3,5% e acumulado, de 233%.

            A economia brasileira nestes doze últimos anos seguidos está sendo caracterizada por um crescimento substancialmente inferior à média mundial.

      Considerando-se os dados divulgados pelo IBGE e, de acordo com novas estimativas apresentados pelo FMI,  em 2019 e em dólares correntes, a maior economia mundial continua sendo a dos Estados Unidos – que dispõe de um PIB (Produto Interno Bruto) de US$ 21,439 trilhões, o que representa cerca de 1/4 (24,76%) do total mundial.

          A segunda maior economia é a da China, com um PIB de US$ 14,140 trilhões e equivalente a 16,33% do total mundial.

         O Brasil aparece na nona colocação, com US$ 1,838 trilhão – equivalente a 2,12% do PIB mundial.

      Já pela metodologia da Paridade de Poder de Compra e em dólar internacional, a economia chinesa continua a ocupar a liderança mundial, registrando um PIB de 27,309 trilhões de dólares internacionais e equivalente a 19,25% do total mundial – sendo seguida pela economia norte-americana detendo um PIB de 21,439 trilhões de dólares internacionais – representando 15,11% do total mundial. Nesse caso, a economia brasileira ganha uma posição no ranking internacional, passando a ocupar o 8º lugar, com um PIB de 3.456,36 trilhões de dólares internacionais – equivalente a 2,44% do total mundial.

         Em janeiro deste ano, o FMI – Fundo Monetário Internacional anunciou ter revisado as suas projeções para a economia mundial e reduzido as taxas previstas para o crescimento médio mundial, para 3,30% em 2020. Considerando-se também as projeções do Relatório Focus do Banco Central de 9 de março último, com projeções de expansão do PIB brasileiro em 1,99% neste ano, os resultados estimados para o desempenho da economia mundial e nacional serão os seguintes:

          Assim, a expansão da economia mundial nos anos de 2019 e 2020 registrarão o pior desempenho da atual década (2011 a 2020), apresentando os menores níveis de crescimento.

         Na década de 2011/2020, a economia mundial alcançará um crescimento médio anual de 3,53% ao ano e acumulado de 41,52%.

        No mesmo período, as Economias consideradas Emergentes – da qual o Brasil integra, contabilizarão uma expansão média anual de 4,78% e acumulada de 59,50% no período de 2011 a 2020. A China praticamente dobrará o tamanho da sua economia, crescendo no acumulado do período 99,57% e, em média, 7,16% ao ano.

          A decepção fica por conta do péssimo desempenho da economia brasileira, que conseguirá expandir a sua economia, no acumulado do mesmo período, em apenas 8,36% – equivalentes a uma média anual de apenas 0,83%.

         É importante destacar que em nenhum dos anos da década de 2011/2020 o desempenho da economia brasileira conseguiu superar a média mundial, permanecendo sempre abaixo e registrando a menor expansão do PIB de sua história econômica.

Brasil tem, na atual década, o registro de sua história em termos do pior desempenho econômico:

            Frustrante e decepcionante mesmo será entender que, em termos de renda per capita, o resultado de toda a atual década será negativo para os brasileiros, com uma perda acumulada de 0,26% no período e isso não levando ainda em consideração, o ritmo de crescimento alcançado pela economia mundial durante o mesmo período. Medido em dólares norte-americanos, o PIB per capita dos brasileiros ao final de 2019 era equivalente ao registrado em 2008.

 

O PIB PER CAPITA BRASILEIRO DE 2019 EM US$ FOI PRATICAMENTE O MESMO DE 2008

       A perplexidade fica ainda maior se considerarmos os números relativos ao desempenho da economia brasileira nestes últimos sete anos (2014 a 2020), mesmo considerando e contabilizando as já  otimistas projeções anteriores que indicavam ao mesmo uma expansão de 1,99% neste ano.

      Nessa situação, no período de 2014 a 2020, o PIB total brasileiro fechará acumulando uma retração de 0,70% – contrastando enormemente com a expansão média da economia mundial de 26,69% e de 35,88% dos países emergentes, no mesmo período.

   Convertidos esses números para a ótica da renda per capita, os resultados destes últimos sete anos (2014 a 2020) da economia brasileira podem ser considerados um verdadeiro desastre quando comparados ao resto do mundo: houve, no período, um declínio acumulado de 9,38% da renda per capita dos brasileiros quando a média mundial alcança uma expansão acumulada de 16,57%. E, nesses números, já estão sendo consideradas as projeções de expansão de 1,99% da economia brasileira para 2020, conforme consta do Relatório Focus do Banco Central, de 9 de março último, e antes da decretação da situação de pandemia, por força do coronavírus, declarada pela Organização Mundial da Saúde.

Vale destacar que, ainda não muito longe dos tempos atuais, ou seja – 25 anos atrás, a economia brasileira superava, em termos de tamanho, a da China, conforme comprovam os dados apresentados a seguir:

CENÁRIOS ECONÔMICOS

        Relatório de 9 de março último da renomada LCA – Consultores Econômicos – considerada a maior de seu gênero no país, revisou projeção crescimento do PIB brasileiro em 2020 para 1,7% no cenário base e para -0,4% no adverso (ao qual atribuiu probabilidade de 30% de vir a ocorrer).

      De acordo com a LCA “Os custos globais de contenção da epidemia de coronavírus, somados à forte correção recente nos mercados de ativos, demandaram ajustes em nossas projeções de crescimento para as principais economias mundiais.  Nosso cenário base continua a pressupor que a epidemia será controlada nos próximos meses, permitindo que os mercados financeiros globais se estabilizem.

         Nessas condições, as cadeias mundiais de suprimento começarão a ser desobstruídas e a demanda global será gradativamente restabelecida, limitando os impactos do coronavírus à primeira metade de 2020”.

        Para a LCA, “esse cenário base, a nossa projeção de crescimento do PIB mundial em 2020 foi reduzida de 3,2%, taxa que projetávamos no final de 2019, para 2,7%; a projeção para 2021 foi revisada de 3,5% para 3,3%.

        As incertezas associadas à evolução mundial do Covid-19, bem como outros elementos globais de risco, sugerem ser relevantes as chances de que a conjuntura internacional desvie para uma trajetória mais adversa.

     Ajustamos de 25% para 30% a probabilidade que atribuímos ao nosso cenário alternativo adverso – que contempla um impacto maior e mais prolongado do Covid-19, num contexto de fragilidade financeira global.

       Para o Brasil, a nossa projeção de crescimento do PIB em 2020 no cenário base foi revista para 1,7%, ao passo que a projeção para 2021 foi rebaixada de 2,9% para 2,5%.

      Vale registrar que essas projeções para a economia doméstica no cenário base pressupõem certo apaziguamento do ambiente político interno, que permita avanços adicionais (ainda que lentos) na age nda econômica.

     Eventual desvio da conjuntura internacional para um cenário adverso tenderia a ter impacto significativo sobre a economia brasileira, de modo que nossa projeção para o nosso PIB sob essa hipótese adversa passou a ser uma contração de 0,4% em 2020, seguida de crescimento de 1,8% em 2021”.

       A LCA acrescenta que o “cenário base prevê recuperação da economia mundial a partir de meados do ano  Passadas pouco mais de seis semanas desde que o surto epidêmico do coronavírus (Covid-19) passou a dominar as manchetes internacionais, os seus potenciais impactos econômicos continuam a gerar grande incerteza num ambiente global que já vinha carregado de incertezas, sobretudo de natureza geopolítica.

       Num primeiro momento, há cerca de um mês, avaliávamos que o principal canal de transmissão dos impactos do Covid-19 para a economia mundial seria um choque de oferta decorrente da obstrução das cadeias de suprimento dependentes de insumos industriais chineses – uma vez que a contenção do contágio epidêmico fechou fábricas em importantes regiões manufatureiras da China. Também avaliávamos que a contração transitória da demanda chinesa por metais e combustíveis teria relevante impacto negativo sobre economias exportadoras dessas commodities.

       Nas últimas semanas, no entanto, a rápida propagação global do Covid-19 – inicialmente pela Ásia, depois pela Europa e ora em estágios iniciais nas Américas -, além de potencialmente amplificar o choque de oferta, tende a resultar também num choque de demanda (de intensidade e duração ainda incertos). O confinamento, mandatório ou voluntário, de populações com vistas a conter a propagação do vírus tende a impactar, sobretudo, o setor de serviços; mas também pode reduzir (ou mesmo interromper) a atividade outros setores econômicos.

       Ademais, a economia mundial também vem enfrentando, nos últimos dias, um choque de outra natureza – decorrente da forte correção nos preços dos ativos globais. As incertezas sobre a extensão dos estragos do Covid-19 certamente tiveram um papel na desvalorização recente de ativos; mas outros elementos de incerteza, como a recente “guerra de preços” travada entre Arábia Saudita e Rússia no mercado internacional de petróleo, amplificaram as perdas nas principais praças financeiras mundiais”.

     A LCA concluiu: “As projeções internacionais de nosso elenco de cenários alternativos foram ajustadas à luz desses acontecimentos recentes. Como argumentamos na Análise LCA desta segunda-feira, dia 09, nosso cenário base foi construído sob a hipótese de que uma nova crise financeira global e, a reboque, uma recessão mundial serão evitadas”.

Conclusão:
É preciso que o Brasil se reconcilie urgentemente com o desenvolvimento

      -“Impõe-se, portanto, a conclusão de que, num país como o nosso, não somente as peculiaridades geográficas e humanas, mas também os dados acerca da evolução econômica indicam o desenvolvimento acelerado como o único caminho de salvação. Nenhuma política será legítima, se não objetivar, com caráter prioritário, o desenvolvimento. É essa uma diretriz que já nenhum governo poderá abandonar no Brasil”. – (JK)

        Assim, a economia brasileira, doente e anêmica, encontra-se raquítica e num círculo vicioso. Não cresce e, em decorrência, a arrecadação real também não se expande. De outro lado, os juros consomem boa parte das receitas e provocam, juntamente com outras elevadas despesas, déficits orçamentários nominais expressivos que, neste ano, deverão atingir 5,8% do PIB. O desfecho só pode ser um: a dívida pública cada vez maior – o que vai sempre exigir mais e mais recursos para financiá-la

          Volto a afirmar que a superação dos diversos impasses atuais e o ingresso do País em uma nova etapa de expansão econômica, contínua e segura exigirão coragem e firme determinação por parte da sociedade brasileira e de seus dirigentes. A saída não é simples nem trivial e demandará enfoques criativos e destituídos de preconceitos e de várias antigas verdades.

         O ajuste das contas públicas brasileira é importante? A estabilidade de preços é relevante? Claro que são – e ninguém discute essas questões, mas elas não são o suficiente nem o bastante para a promoção da retomada do desenvolvimento brasileiro, com crescimento econômico vigoroso, contínuo, consistente e sustentável.

          Há sim, uma grave crise financeira do setor público brasileiro, em todos os seus níveis. E, para equacioná-la, é necessário e indispensável que se promova, em primeiro lugar, o resgate do crescimento da economia e se busque a resolução dos problemas financeiros que o impedem de exercer o seu imprescindível papel dinamizador.

        É mister, também, que não se caia aqui no privatismo radical e absoluto. É certo que a superação da crise financeira do Estado brasileiro exigirá um reposicionamento e um redimensionamento do mesmo no contexto da economia nacional. No entanto, sua presença continua essencial e insubstituível.

       Neste sentido, o equacionamento e a solução da problemática financeira do setor público devem se efetivar no bojo de um projeto global de redefinição de seu papel na economia do País, e não a partir de medidas tópicas, superficiais e indiscriminadas que fariam agravar a questão.

       Sem a superação desses entraves, a economia brasileira continuará patinando, imersa no conjunturalismo predominante e vigorante em várias das décadas anteriores e ainda persistente nos dias atuais. Desatar esses nós é pré-condição para o seu lançamento em um novo ciclo de expansão.

Os brasileiros precisam recuperar a bandeira de nossas bandeiras, que é a esperança!!

            O Brasil precisa se reconciliar com o crescimento econômico vigoroso, consistente, contínuo, sustentável e eleger o desenvolvimento como a nossa meta prioritária número 1!

            O crescimento econômico vigoroso deve deixar de ser apenas uma casualidade, uma questão episódica, uma efemeridade, um acontecimento meramente fortuito para se transformar, efetivamente, na grande meta econômica nacional, permeando a convolação do País em uma economia madura e desenvolvida. Nesta direção, já tivemos antes, vários exemplos de sucesso e que poderiam nos servir de inspiração, como foi o caso do Plano de Metas, implementado durante o Governo JK.

            País que não cresce é país condenado à pobreza e ao subdesenvolvimento, e, por isso, torna-se imprescindível o estabelecimento de uma “Agenda Estratégica para o Desenvolvimento Nacional” – em que a transformação do Brasil em Nação Desenvolvida seja o grande objetivo.

            JK já afirmava que as maiores ameaças à democracia são a miséria, o desemprego e o subdesenvolvimento. Ao longo destas últimas três décadas, a busca obsessiva pela estabilidade econômica tem nos ofuscado todas as possibilidades de colocar o desenvolvimento como a nossa grande, prioritária e fundamental meta nacional, e corremos ainda o risco de ficarmos durante os próximos vinte anos relegando o crescimento vigoroso pela discussão centrada apenas no ajuste e no equilíbrio das contas públicas.

            JK também já alertava que é preciso que nos capacitemos, de uma vez para sempre, de que o desenvolvimento do Brasil é uma condição ligada à nossa sobrevivência num mundo que se impõe, mais e mais, pela força de sua vertiginosa marcha técnica. Não temos de nos desenvolver apenas por ambição mesmo justa, mas desenvolver para sobreviver.

            Sem investimento não há hipótese de desenvolvimento!

       Já tivemos antes a oportunidade, juntamente com vários outros economistas, de ressaltar a necessidade de compreendermos a importância da retomada do crescimento econômico; alguns equívocos têm permeado as políticas econômicas do País e, se persistirem, obstruirão inapelavelmente qualquer tentativa de relançamento da economia brasileira de volta ao caminho do desenvolvimento. Não basta apenas crescer. É necessário que o crescimento da nossa economia supere a média mundial e possa se compatibilizar com o nível de expansão das economias dos países emergentes. E, ainda, que incorpore outros elementos, como as da qualidade, da produtividade e da competitividade.

       Um desses equívocos diz respeito à crença de que a estabilidade econômica é condição prévia à retomada do desenvolvimento do País. Primeiro a estabilidade, só depois o desenvolvimento. Sendo assim, as políticas de estabilização assumem um caráter de primazia absoluta, subordinando e sufocando todas as outras políticas. Apequena-se a política econômica, amesquinham-se os objetivos para a economia do País. E já lá se vão algumas décadas de busca inglória da miragem da estabilidade.

       Evidentemente, ninguém, em sã consciência, há de negar a necessidade de as economias nacionais ostentarem bons e saudáveis fundamentos macroeconômicos. O caminho da estabilidade deve ser concebido e implementado, no bojo de uma política de desenvolvimento para o País. A estabilidade não precede o desenvolvimento; ao contrário, é a estratégia de desenvolvimento do País que deve, simultaneamente, orientar e contextualizar as opções da política macroeconômica. Até porque, ao contrário do que se costuma propagar, os caminhos possíveis para se alcançar a estabilidade econômica são vários.

       Outro desses equívocos é imaginar que apenas o ajuste fiscal e algumas reformas – como a previdenciária – também devem ser considerados como condições prévias à retomada do desenvolvimento. Da mesma forma colocada em relação à estabilidade econômica, deve-se privilegiar – concomitantemente – a expansão econômica que produzirá ganhos generalizados e, em especial, aumentos da arrecadação tributária. Cabe destacar que, quando um denominador é baixo, todos os numeradores podem ser considerados altos – o que se aplica efetivamente no tocante à questão das receitas e despesas públicas. Quando há declínio da atividade econômica, como ocorre nos anos mais recentes – a produção nacional não cresce – os lucros se transformam em prejuízos para empresas e, com isso, não há como gerar Imposto de Renda e outras receitas.

       Aspecto fundamental para superar a questão do fraco crescimento econômico, em primeiro lugar, passa pelo resgate da confiança, da credibilidade e do otimismo, para considerarmos que esta situação crítica pela qual hoje atravessa o país não seja considerada contínua, definitiva ou duradoura. Sempre o Brasil deu provas concretas de sua capacidade para superar os seus principais problemas e entraves, de forma eficiente e rápida, mas isso depende, principalmente, da inadiável exigência de realização de profundas reformas políticas, sociais e econômicas, bem como torna-se hoje imperativo desideologizar e despolitizar o debate econômico, sintonizando-nos com as várias transformações em curso na economia internacional para lhes captar as tendências mais prováveis de realização e aqui antecipá-las na sua implementação.

     O Brasil está acometido de uma doença que intitulo de “síndrome do raquitismo econômico” – em função do intenso declínio dos seus níveis de produtividade e pela constante retração da atividade econômica, principalmente quando comparados com as médias mundiais.  A constatação, como já mencionado anteriormente, é que desaprendemos a crescer, e a nossa máquina propulsora do crescimento econômico vigoroso e contínuo enferrujou-se ou está quebrada. País que não cresce está condenado ao ananismo, ao atraso e ao empobrecimento. Isso potencializa tensões e perspectivas sociais explosivas – podendo colocar em risco a ainda incipiente democracia brasileira.

       É indispensável, ademais, recuperar a nossa capacidade de planejamento estratégico de longo prazo, que entendo, deva ter, como fundamento básico, a nossa transformação em Nação Desenvolvida. É preciso nos sintonizar com as rápidas e importantes transformações por que passa a economia internacional, a sua estrutura produtiva e as novas dimensões trazidas por novos e potenciais mercados, como seriam os casos da China e Índia, além de outros.

       Para isso ocorrer, é preciso formar uma “intelligentsia” nacional com o objetivo de se definir que, para a nossa transformação rumo ao desenvolvimento, será exigida, como a primeira de todas as metas, a do crescimento econômico vigoroso, consistente, contínuo e sustentável. Nesse sentido, ganha relevância e requer ênfase especial as prioritárias questões da produtividade, da inovação tecnológica, da qualidade e competitividade, da reforma tributária, da eficácia e melhoria da educação em todos os seus níveis.

O Brasil foi um dos países que mais cresceu no século passado e, durante a sua segunda metade, o crescimento vigoroso da economia nacional ficou conhecido como “Milagre Brasileiro”.”.

      Em todo o século XX, o PIB nacional registrou declínio em apenas 13 ocasiões. A título de ilustração, no período de 1957 a 1976, o PIB nacional contabilizou expansão média anual de 8% e, no acumulado, o aumento atingido foi de 365% – ou seja, a economia brasileira praticamente quadruplicou de tamanho em apenas 20 anos.

       Portanto, a história já nos demonstrou e comprova que sabemos fazer desenvolvimento e crescimento econômico expressivo. E é exatamente isso que precisamos novamente fazer!

     JK também já alertava que é preciso que nos capacitemos, de uma vez para sempre, de que o desenvolvimento do Brasil é uma condição ligada à nossa sobrevivência num mundo que se impõe, mais e mais, pela força de sua vertiginosa marcha técnica. Ele afirmava que não temos de nos desenvolver apenas por ambição mesmo justa, mas desenvolver para sobreviver. E ainda acrescentava:

     “Não se faz, não se opera a modificação de um país, sem que haja também uma nova mentalidade, a mentalidade para o desenvolvimento, a mentalidade de grande país. É isso o que me parece indispensável ao nosso Brasil”.

     Essa experiência histórica, conduzida por um mineiro de Diamantina, não pode se constituir numa simples lembrança de um passado já quase longínquo. Ela deve ser a nossa inspiração e o nosso exemplo, para que o Brasil venha novamente abraçar a causa do desenvolvimento.

     Vamos transformar as nuvens de hoje na copiosa chuva de amanhã, para fecundar a economia e tornar mais humana e justa a sociedade brasileira.

ANEXOS