Em 2019, 25% das exportações do agronegócio mineiro tiveram como destino a China

ENTREVISTA – ROBERTO SIMÕES

Em poucos meses, o ano de 2020 vem se mostrando repleto de surpresas, que mudam as previsões dos economistas. Os analistas do mercado financeiro reduziram, pela primeira vez, o crescimento da economia brasileira abaixo dos 2%. Covid-19, dólar em alta, queda nas bolsas são alguns dos problemas enfrentados. O presidente do Sistema da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Minas Gerais, Roberto Simões, fala do cenário econômico e seus impactos para o setor. Ele destaca que não é apenas o câmbio que determina o desempenho da balança comercial da atividade e que segue acompanhando os desdobramentos do corona vírus.

 O governo brasileiro confirmou na noite do dia 25 de fevereiro o primeiro caso do coronavírus. Quais impactos isso pode ter para o agronegócio no Estado?

A China é o principal parceiro comercial do Brasil e também de Minas Gerais, especialmente, no agronegócio. A disseminação da doença COVID-19, originária naquele país tem causado alarme em todo o mundo e levado a ações estratégicas de governos e das empresas para além da área da saúde. Há forte atenção quanto ao impacto significativo na economia na China, nomeadamente no varejo, transporte, atividades de lazer e em setores industriais que dependem de entradas como máquinas elétricas e motores a combustível, transporte equipamentos elétricos e componentes eletrônicos e partes de fabricação (uma vez que muitas fábricas colocaram trabalhadores em estado de prevenção) e já há desabastecimento de produtores originários de lá para diversas empresas. Na semana de 17 a 21/02, o aumento de casos do Covid-19 em outros países do Sudoeste Asiático foi o principal fator para um movimento negativo das bolsas. Os investidores seguem preocupados com os impactos dessa doença na economia global, apesar de que os primeiros dados de fevereiro dos EUA (sondagens do Fed da Filadélfia e Nova York) e os Índices dos Gerentes de Compras da zona do euro tiveram um desempenho robusto. O dólar se fortaleceu frente às principais moedas por conta da insegurança causada pela doença e pelo desempenho mais forte da economia americana. Como temos uma forte relação com o país, já sentimos, por exemplo, desde o ano passado, a redução nas nossas exportações de soja. A forte influência do caso de peste suína na China, levou a drástica redução dos rebanhos no país em 2019, e causou a queda das exportações de soja brasileiras e sobretudo de Minas Gerais, da ordem de 29,9%. O complexo soja do estado retraiu as vendas do montante de US$1,29 bilhão para US$ 909 milhões, em 2018 e 2019 respectivamente. Por outro lado, exportamos mais carne para o país asiático. Continuaremos a acompanhar os desdobramentos da influência da doença COVID-19 e as ações para prevenção e redução da disseminação.

O último dado do Produto Interno Bruto (PIB) divulgado pela Fundação João Pinheiro mostra que a economia de Minas Gerais encolheu 0,2% em 12 meses completados em setembro de 2019, inferior ao registrado em igual intervalo do ano anterior. No Brasil, ao contrário, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) estimou uma expansão de 1,0% na mesma base de comparação. O minério e o desempenho do café foram os principais motivos para a queda do PIB. É possível que haja alguma mudança no desempenho do café no resultado do quarto trimestre?

 A publicação do IBGE sobre os resultados do PIB brasileiro até o 3º trimestre 2019 indicam crescimento da economia em 1%, estimado em 1,842 trilhão. Pelo lado da demanda, o consumo das famílias e a formação bruta de capital fixo (investimento privado) tem apresentado aumentos ao longo dos três trimestres de 2019. Já, pelo lado da oferta, a agropecuária cresceu 1,4%, a indústria: 0,1% e serviços: 1,1%. Já, em Minas Gerais, os dados da FJP mostram que o PIB de Minas retraiu 0,4% no acumulado do ano até setembro, frente a igual período do ano anterior. Foram verificadas quedas na indústria (2,1%) e na agropecuária (2,1%). No indicador industrial, a redução da produção do minério, por conta dos desdobramentos do rompimento da barragem da Vale, em Brumadinho. Já, na agropecuária, a bienalidade negativa da cafeicultura em 2019 contribuiu para a redução do indicador. Minas Gerais é o maior estado produtor, responsável por 50% da produção nacional, e a previsão da colheita ficou em 24,5 milhões de sacas, volume 26,5% menor que a safra anterior. Menores também foram os preços pagos por saca, com valor médio de R$ 411 para a espécie arábica e R$ 291 para conilon. A safra 2019 foi observada por qualidade comprometida por conta do clima e desuniformidade na maturação dos grãos. Os produtores no estado estão pagando para produzir, uma vez que o valor pago pela saca de café está menor que os custos de produção. O ano foi marcado por uma série de intempéries climáticas que ligaram o sinal de alerta para a próxima safra, a exemplo, geada nas regiões do Sul de Minas e Cerrado, granizo, falta de chuva. Mas, mesmo assim, espera-se que a safra 2019/20 seja maior devido a bienalidade positiva. A avaliação do quarto trimestre de 2019 ainda será publicada pelos órgãos oficiais em março, mas considerando que ainda necessitávamos de medidas mais robustas para a reativação da economia do país e de Minas Gerais, pela ótica da produção, não se pode afirmar que o quarto trimestre poderá ser responsável por um crescimento substancial no indicador.

O Valor Bruto da Produção (VBP) em Minas superou R$ 66 bilhões, crescimento de 5,8% sobre o faturamento do setor em 2018. O que ajudou neste resultado?

Considerando a metodologia desenvolvida pelo Sistema FAEMG e o fechamento dos dados do ano 2019, verificou-se que o VBP da agropecuária atingiu R$ 68,9 bilhões. Em termos gerais, verificou-se expansão da produção e de preços dos produtos produzidos em Minas Gerais. Pelo lado da produção, ampliação para algodão, banana, batata, feijão, laranja, mandioca, milho e sorgo e também no setor da pecuária (considerando os dados finalizados até o terceiro trimestre). Pelo lado dos preços, a influência foi positiva para os produtos: abacaxi, banana, batata, cana, cebola, feijão, milho, sorgo, tomate, arroba bovina, frango, suínos e leite.

Qual ano teve resultado recorde no VBP de Minas Gerais? 

A consideração de valor nominal é falha.

Qual é a participação de Minas Gerais no total nacional? Vem crescendo, reduzindo ou se manteve estável? Em quais áreas nosso Estado é destaque no país?

As metodologias de apuração do indicador pelo MAPA e pelo Sistema FAEMG são diferentes. Ainda assim, é possível constatar evolução do VBP ao longo dos anos. Na comparação de Minas Gerais com o Brasil, o percentual fica em torno de 10 a 12%, justificada pela nossa diversidade produtiva.

 Quais as expectativas do agronegócio mineiro para 2020? Deve crescer mais na comparação com 2019? Quais os principais entraves enfrentados pelos produtores?

Os entraves enfrentados pelos produtores são muitos, desde aspectos produtivos, com a necessidade de assistência técnica adequada (e onde o Sistema FAEMG tem estado mais presente), custos de produção, logística, falta de infraestrutura adequada e de comunicação. Questões ambientais, sanitárias e tributárias também restringem a ampliação da produção. Temos trabalhado firmemente para a solução dos gargalos, seja junto ao governo estadual, seja alinhado com o Sistema CNA para os desdobramentos em nível federal.

Como o senhor analisa o comportamento do câmbio para o agronegócio? É bom para as exportações do Estado?

 Com o dólar alto, verifica-se, via de regra, ampliação da competitividade de nossos produtos no mercado internacional, favorecendo as exportações. Em real, recebemos mais pelos nossos produtos. Todavia, esse não é o único fator que influencia na nossa balança comercial, na expansão das nossas exportações do agronegócio. Em 2019, por exemplo, o agronegócio de Minas Gerais exportou menos 3,5% em valor, da ordem de US$ 7,85 bilhões ante US$ 8,14 bilhões em 2018. Minas Gerais teve 172 parceiros comerciais em 2019. Somente a China, ainda que tenha diminuído suas demandas de soja, principal produto exportado para aquele país, foi responsável por 25% das exportações do agronegócio mineiro, atingindo US$ 1,94 bilhão. Em nível nacional, temos verificado o trabalho intenso capitaneado pela Ministra Teresa Cristina, para dar conhecimento sobre as nossas potencialidades e realidades produtivas, na tentativa de expandir nossos parceiros comerciais. Diversas missões internacionais aconteceram em 2019. O ano também foi importante nos firmamentos dos acordos comerciais do Mercosul-União Europeia e Mercosul-EFTA, ainda que efetivamente ainda restem alguns ajustes nos parlamentos, antes da prática da esperada expansão comercial. Na mesma medida empreendida pelo governo brasileiro por meio do MAPA, o Sistema CNA tem participado das missões e também articulado e desenvolvendo o Projeto Agro.BR com a APEX-Brasil. O foco é a maior valorização dos produtos e dos produtores, agregação de valor e diversificação da pauta exportadora. Além das missões, estão sendo desenvolvidas ações de mapeamento das cadeias produtivas, capacitações e workshops com os produtores, ampliando seu conhecimento sobre os mercados compradores, os trâmites alfandegários e estratégia exportadora. Agora em 2020 teremos um escritório regional especializado no Sistema FAEMG.

Quais produtos devem se manter mais caros para o consumidor brasileiro em 2020?

Já no final do ano verificamos a escalada dos preços de produtos da pecuária, dados os desdobramentos do mercado interno e das exportações, e também da sazonalidade de produtos hortifrutícolas. Se por um lado pode haver uma recomposição das margens para os produtores, mesmo com custos mais altos, por outro o consumidor pode amargar preços mais altos no varejo. Ainda estamos no início do ano e continuaremos o acompanhamento das chuvas, das safras, do mercado. O que temos observado é que, nos últimos anos, a contribuição da agropecuária tem levado à queda da inflação.