*Por Carlos Alberto Teixeira de Oliveira

Administrador, Economista e Bacharel em Ciências Contábeis. Presidente da ASSEMG-Associação dos Economistas de Minas Gerais. Ex-Presidente do BDMG e ex-Secretário de Planejamento e Coordenação Geral de Minas Gerais; Vice-Presidente da ACMinas – Associação Comercial e Empresarial de Minas e Presidente/Editor Geral de MercadoComum.

Já li vários livros, artigos e assistido a vários depoimentos e palestras do André Lara Resende, o qual reputo como um dos mais lúcidos e melhores economistas brasileiros. Principalmente nestes últimos três anos, venho acompanhando-o em seus comentários, através de artigos publicados e entrevistas concedidas, em especial ao jornal Valor Econômico, sobre política monetária e economia brasileira de uma forma geral. Tive, nesses períodos, a oportunidade de compartilhar, neste espaço de MercadoComum, muitas das ideias de Lara Resende, deixando bem claro que concordava integralmente com a maioria das suas afirmações e que muitas delas eu também já havia aqui anteriormente abordado. De outro lado, alertava sobre a importância de uma reflexão por parte, notadamente de nós economistas, sobre os temas que tão bem eram por ele explorados.

Assim, por exemplo, de acordo com matéria publicada em Valor de 26 de março de 2019 “ele criticou de modo contundente a política monetária brasileira das últimas décadas, em evento no qual defendeu enfaticamente as ideias de que a taxa de juros deve ser fixada pelo Banco Central abaixo da taxa de crescimento e que um governo que emite sua moeda não enfrenta restrições financeiras, apresentadas por ele recentemente em artigo no Valor. Ao comentar porque o Brasil não cresce, Lara Resende disse que faria uma “simplificação e afirmou que desde o Real o BC fixou o juro básico entre seis e duas vezes a taxa de crescimento”.

“Quando você coloca os juros seis vezes a taxa de crescimento, o investimento colapsa, o crescimento cai, a dívida/PIB sobe” – afirmou Lara Resende. Com ‘um dogma financista’, aumentam-se os impostos, o que levou a carga tributária brasileira para 36% do PIB, uma das mais altas do mundo. “Isso asfixia a economia, que não consegue funcionar”, disse ele, em evento organizado pelo Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI), que teve a participação do ex-presidente do BNDES Edmar Bacha e do ex-ministro da Fazenda Pedro Malan”.

Acrescenta a matéria: Ele destacou que, desde que o país superou a inflação crônica, há 25 anos, a produtividade ficou estagnada, enquanto a chilena foi multiplicada por 5 e a chinesa, 20 a 25 vezes.  Antes de falar do nível de juros, disse que o Brasil é um país com todos os recursos possíveis, com “gente de altíssimo nível, capacidade empresarial, que tem capital”.

O economista fez críticas à política fiscal e à atuação de Estados e municípios. Esses governos precisam respeitar o orçamento, destacou ele, que atacou, porém, as punições que asfixiam o Estado. “O Estado se comportou mal, então não pode mais gastar’, ironizou. ‘Isso destrói o país, destrói a infraestrutura, destrói a segurança, destrói a educação. Destrói o moral da população.

Ex-presidente do BNDES, Lara Resende afirmou ser “uma balela” a ideia de que aumentar a demanda pode criar a inflação num cenário em que a capacidade ociosa é de 40% e a taxa de desemprego é de 12,5%. “É conversa fiada’, afirmou”.

O Estado de S. Paulo – 06.02.2020

Sobre os juros elevadíssimos praticados no país durante estas quase três décadas ele fez o seguinte comentário ao O Estado de S. Paulo, em 31 de março ano passado:

 “Paulo Guedes tem razão sobre os juros excessivamente altos desde a estabilização do real. Durante os governos do PT, sobretudo a partir do segundo mandato de Lula, houve também um descontrole completo dos gastos públicos. Gastou-se mal e irresponsavelmente. A política fiscal foi demagógica, promovendo o empreguismo e a distribuição de vantagens. Turbinado pela corrupção, o governo investiu mal e nas áreas erradas. Quanto ao nível excessivamente alto dos juros, tenho dúvida de que ele é causado pelo déficit fiscal ou se não é o inverso: os juros altos causam o déficit. O que se sabe hoje é que as políticas monetárias e fiscal não são independentes, precisam ser coordenadas, porque são as duas faces da mesma moeda”.

Ao abordar a questão das reformas estruturais do Brasil, ele escreveu para o Valor Econômico em 8 de março de 2019:

“Comecemos pela questão que ocupa as manchetes, a reforma da Previdência. Sim, é preciso uma reforma da Previdência, não porque ela seja deficitária, mas porque ela é corporativista e injusta e porque o aumento da expectativa de vida exige a revisão da idade mínima. O déficit do sistema previdenciário, como todo déficit público, não precisa ser eliminado se a taxa de juros for inferior à taxa de crescimento. Como estamos com alto desemprego, significativamente abaixo da plena utilização da capacidade instalada e com expectativas de inflação ancoradas, o objetivo primordial das “reformas” deve ser estimular o investimento e a produtividade.

 Em paralelo à reforma da Previdência, deve-se fazer uma profunda reforma fiscal segundo os preceitos das finanças funcionais de Abba Lerner. O objetivo da reforma tributária não deve ser maximizar a arrecadação, mas sim o de simplificar, desburocratizar, reduzir o custo de cumprir as obrigações tributárias, para estimular os investimentos e facilitar a inciativa privada. Enquanto não houver pressão excessiva sobre a oferta e sinais de desequilíbrio externo, a carga tributária deve ser significativamente menor.

  A taxa básica de juros deveria ser reduzida, acompanhada do anúncio de que, a partir de agora, seria sempre fixada abaixo da taxa nominal de crescimento da renda. Simultaneamente, deveria-se promover a modernização do sistema monetário, substituindo as LFTs e as chamadas Operações Compromissadas, que hoje representam metade da dívida pública, por depósitos remunerados no Banco Central. Adicionalmente, seria dado acesso direto ao público, não apenas aos bancos comerciais, às reservas remuneradas no Banco Central. A modernização do sistema, com redução de custos e grandes ganhos de eficiência no sistema de pagamentos, passaria ainda pela criação de uma moeda digital do Banco Central, que abriria o caminho para um governo digital e desburocratizado.

Para garantir a eficiência dos investimentos e o ganho de produtividade, deveria-se promover uma abertura comercial programada para integrar definitivamente a economia brasileira na economia mundial. O prazo de transição para a completa abertura comercial deveria ser pré-anunciado e de no máximo cinco anos.

 Por fim, mas não menos importante, seria fundamental criar mecanismos eficientes, idealmente através da contratação de agências privadas independentes, para avaliação de custos e benefícios dos gastos públicos em todas as esferas do setor público. A política fiscal é da mais alta relevância para o bom funcionamento da economia e para o bem-estar da sociedade. Compreender que o governo não tem restrição financeira não implica compactuar com um Estado inchado, ineficiente e patrimonialista, que perde de vista os interesses do país. Ao contrário, redobra a responsabilidade e a exigência de mecanismos de controle e avaliação sobre a qualidade, os custos e os benefícios, dos serviços e dos investimentos públicos.

Quase sete décadas depois de Gudin, os liberais voltam a comandar a economia. O apego a um fiscalismo dogmático e a um quantitativismo anacrônico pode levá-los, mais uma vez, a voltar para casa mais cedo do que se imagina”.

Em artigo publicado no Valor de 8 de março de 2019 ele afirmou:

 “A dívida pública denominada na moeda nacional, de um país que controle a emissão de sua moeda, não tem risco. A não ser por uma decisão política de interromper o seu serviço, o governo sempre terá como financiá-la. Se a política fiscal e monetária forem coordenadas e bem executadas, a inflação continuará ancorada e bem comportada. Com o desemprego e a capacidade ociosa atual, a taxa de juros deveria estar bem abaixo da taxa de crescimento. O risco está em prosseguir com a política de juros muito mais altos do que o crescimento. Isto agrava o desequilíbrio fiscal e induz ao aumento da carga tributária. O resultado é o colapso dos investimentos e a asfixia da economia, que não consegue voltar a crescer de forma sustentada”.

“A nova macroeconomia que começa a ser delineada é capaz de explicar fenômenos incompatíveis com o antigo paradigma. É o caso, por exemplo, da renitente inflação abaixo das metas nas economias avançadas, mesmo depois de um inusitado aumento da base monetária. Permite compreender como é possível que a economia japonesa carregue uma dívida pública acima de 200% do PIB, com juros próximos de zero, sem qualquer dificuldade para o seu refinanciamento. Ajuda a explicar o rápido crescimento da economia chinesa, liderado por um extraordinário nível de investimento público e com alto endividamento. Em relação à economia brasileira, dá uma resposta à pergunta que, há mais de duas décadas, causa perplexidade: como explicar que o país seja incapaz de crescer de forma sustentada e continue estagnado, sem ganhos de produtividade, há mais de três décadas?”

Em entrevista concedida ao O Estado de S. Paulo, em 31 de março último, o renomado economista declarou:

“Responsabilidade fiscal não pode ser confundida com dogmatismo. O importante não é equilibrar o orçamento no curto prazo a qualquer custo, mas tributar e investir bem. É preciso que a tributação seja simples e os investimentos públicos, eficientes. É preciso ter uma reavaliação permanente dos custos e dos benefícios dos gastos públicos. É mais importante tributar e investir bem, com o objetivo de aumentar a produtividade e a equidade, ainda que sem equilibrar o orçamento, do que eliminar o déficit, mas continuar tributando e gastando mal. Isso é verdade, sobretudo, quando há desemprego e capacidade ociosa”.

Perguntado sobre como explicar que o Brasil seja incapaz de crescer de forma sustentada e continue estagnado, sem ganhos de produtividade, há mais de três décadas, ele respondeu:

“Do ponto de vista macroeconômico, se o governo gastar mais do que retira da economia via impostos, estará aumentando a demanda agregada. Quando a economia estiver perto do pleno emprego, corre o risco de causar desequilíbrios e provocar pressões inflacionárias. Do ponto de vista microeconômico, a política fiscal tem impactos alocativos e redistributivos importantes. Embora o governo não esteja sempre obrigado a equilibrar receitas e despesas, a composição de suas despesas e de suas receitas, a forma como o governo conduz a política fiscal, é da mais alta importância para o bom funcionamento da economia e o bem-estar da sociedade. A preocupação dos formuladores de políticas públicas não deve ser o de viabilizar o financiamento dos gastos, mas sim a qualidade, tanto das despesas como das receitas do governo. A decisão de como tributar e gastar não deve levar em consideração o equilíbrio entre receitas e despesas, mas sim o objetivo de aumentar a produtividade e equidade. Por isso, é fundamental não confundir a inexistência de restrição financeira com a supressão da noção de custo de oportunidade.

 O governo continua obrigado a avaliar custos e benefícios microeconômicos de seus gastos. Um governo que equilibra o seu orçamento, mas gasta mal e tributa muito, é incomparavelmente mais prejudicial do que um governo deficitário, mas que gasta bem e tributa de forma eficiente e equânime, sobretudo quando a economia está aquém do pleno emprego.

 Críticas à política de juros e à teoria macroeconômica

André Lara Resende lançou, no dia 7 de fevereiro último, o livro intitulado “Consenso e Contrassenso: Por uma Economia Não Dogmática”, através da Portfolio-Penguin, O livro reúne seus artigos publicados no jornal Valor Econômico ao longo dos últimos anos com críticas à política de juros e à teoria macroeconômica que predomina nos debates brasileiros.

De acordo com os jornalistas Diego Viana e Robinson Borges “o economista retoma os artigos publicados no ano passado e vai além. Relembra a própria trajetória como pesquisador e investidor, sua participação na elaboração dos planos Cruzado e Real e na negociação da dívida externa. O título do livro é extraído do primeiro artigo publicado no ano passado, que tratava das transformações na macroeconomia desde a crise de 2008. Com seu subtítulo, “Déficit, Dívida e Previdência”, o ensaio anunciava que as relações entre o endividamento público e a evolução do déficit fiscal não ocorrem do modo como se costumava pensar”.

Eles acrescentam: “Suas críticas à política de juros e à teoria macroeconômica que embasam decisões e análises no Brasil geram reações em outros economistas, provocando debates duradouros. Suas opiniões sobre a natureza da moeda e o peso da dívida pública vão na contramão das teorias mais tradicionais.

Coautor dos artigos que introduziram a noção de inflação inercial e contribuíram para formular o Plano Real, o economista é crítico da política de juros implementada no país desde 1994. A Selic alta não contribuiu para segurar a inflação e ainda teve impacto na dívida pública e no baixo crescimento. Assim, a recente redução dos juros pelo Banco Central é vista como uma correção de rumos, embora tardia”.

Publicada no Valor Econômico de 7 de fevereiro último, André Lara Resende concedeu uma entrevista especial aos jornalistas Diego Viana e Robinson Borges, fazendo comentários sobre o seu novo livro.

Ele afirmou: “Como digo na introdução de meu novo livro, depois de dois anos de profunda recessão, 2015 e 2016, a economia brasileira continua estagnada. Enquanto a renda da China é hoje 18 vezes o que era há 40 anos, a brasileira não chega ao dobro do que era em 1979. A distância entre o Brasil e os países avançados não se reduziu. Pelo contrário, aumentou. Não foi possível superar o fosso que separa o Brasil rico e moderno do Brasil onde impera a miséria e a desesperança. Sem inflação e sem dívida externa, o país está paralisado, preso a uma armadilha ideológica imposta pelos cânones de uma teoria macroeconômica anacrônica”.

Sobre a questão do aumento dos gastos públicos no Brasil, disse:

Qualquer coisa que se fale sobre aumentar gastos públicos é percebida como se fosse estapafúrdia. Na verdade, ter certa disciplina fiscal é sempre desejável. Em todos meus artigos sempre digo isso. Existe uma restrição efetiva, que é a capacidade instalada da economia e do emprego. Se começar a pressionar os limites, começa a pôr pressão, [provoca] desequilíbrio externo. Cria redução de superávit no balanço de pagamentos, balança comercial e, eventualmente, começa a ter pressões inflacionárias. Existem restrições? Existem, mas não é uma questão financeira, sempre e a qualquer custo, do equilíbrio fiscal e financeiro.

Em momentos como o Brasil de hoje, que está com muita capacidade ociosa, grande desemprego e profundas necessidades de gastos públicos – infraestrutura, saneamento, saúde, educação, segurança -, é fundamental poder fazer esses gastos. É melhor para a confiança e para atrair investimentos privados internos e externos do que a ideia de uma obsessão de equilibrar o orçamento a qualquer custo, no curto prazo”.

Um alerta sobre os equívocos da economia da macroeconomia brasileira

Perguntado por que muitos economistas reagiram aos seus artigos da forma como fizeram, Lara Resende explicou:

Primeiro, os economistas do “mainstream”, a visão dominante no Brasil, são fiscalistas. A ideia é fazer o ajuste fiscal e deixar que a confiança, os investimentos privados e os investimentos estrangeiros façam tudo o que for necessário para a economia. Isso é um liberalismo completamente equivocado. Eu me considero um liberal, mas isso é uma versão ingênua e profundamente equivocada de como funciona a economia. Segundo, minha crítica é muito profunda sobre a macroeconomia mainstream. Estou dizendo: toda a macroeconomia está construída sobre bases equivocadas. Isso é perturbador para economistas com essa formação, como a minha. Só que você tem de reconhecer: estávamos errados. Como os economistas, principalmente os macroeconomistas, se tornaram homens públicos – na verdade políticos, fazem política, embora pretendam estar fazendo ciência -, isso ameaça a legitimidade para se expressar na vida pública. A questão é: a macroeconomia estava errada. Circunstancialmente funcionou   durante certo tempo.

Desde o fim do século passado ela não é mais adequada para explicar o funcionamento da economia. A economia hoje é de puro crédito, a visão de moeda creditícia é incompatível com a da teoria monetária do início do século passado. Existe, portanto, uma razão política e uma ameaça sobre a estrutura teórica da macroeconomia, que fundamenta a sua legitimidade de opinar na política”.

Questionado sobre a sua contestação no livro da tese de que a dívida pública é um ônus a ser arcado pelas gerações futuras como muitos economistas advogam, ele respondeu:

“Isso é um equívoco lógico. Para ficar claro, a dívida pública é interna, não externa. Quem é o detentor da dívida pública interna? São os credores, o próprio país. Os devedores são aqueles que vão pagar, no futuro, os impostos, os contribuintes. Quem são os credores? São os detentores da dívida pública. Quem são os detentores da dívida pública? Os agentes superavitários. Então, existe um elemento distributivo na dívida pública. Quando a dívida pública é justificável? Se você emitiu dívida pública para fazer investimentos que beneficiam a todos, inclusive aos mais pobres, é razoável. Sempre serão os agentes superavitários que vão deter a dívida pública, e esses agentes superavitários tendem a ser um dos mais ricos nos países muito injustos, mas são fundações, todos os fundos de aposentadoria – que não necessariamente são superavitários; são poupadores, que detêm a dívida pública. O errado é perceber a dívida pública como ameaça, quando a dívida pública é uma dívida de nós com nós mesmos. Então, tem efeitos sobre como os gastos que foram financiados com a emissão dessa dívida pública são feitos. O mais importante é que sejam benfeitos, que beneficiem a produtividade e o bem-estar de todos, portanto os serviços públicos, investimento em infraestrutura, saúde, educação, segurança”.

E, ainda, perguntado sobre se o efeito distributivo não poder ficar um ônus fiscal:

“Só haverá ônus fiscal, como disse num artigo, se a taxa de juros da dívida pública for muito superior à taxa de crescimento da economia. Se não for, não haverá ônus, o próprio crescimento resolve a questão do pagamento dos juros da dívida. Outra questão é: não há razão nenhuma para ter, por períodos prolongados, a taxa de juros real da dívida pública, a taxa básica, que é totalmente controlada pelo Banco Central, acima da taxa de crescimento da economia. Você não tem problema nenhum em emitir dívida pública, desde que você garanta que a taxa de juro real não será superior, por muito tempo, à taxa de crescimento da economia. Com isso, você não terá crescimento da razão dívida-PIB. Como hoje no mundo todo as taxas de juro são praticamente zero, a taxa real zero, até negativa em tantos países, e a taxa de crescimento, embora baixa, 1,5%, 2,5%, é muito superior, então não há restrição nenhuma para emissão de dívida pública”.

Elogios ao presidente do Banco Central Roberto Campos Neto:

“O Banco Central, na gestão de Roberto Campos Neto, finalmente se deu conta do equívoco que era manter a taxa de juros básica nos níveis absurdamente altos em que foram mantidas desde o Plano Real. Sobretudo diante do desemprego e do alto nível de capacidade ociosa observados desde a recessão de 2014 e 2015, a política de juros do Banco Central era absolutamente injustificável. Tenho a impressão de que a alta taxa de juros apenas agravou o desequilíbrio fiscal e desestimulou o investimento, sem, já há muito anos, dar qualquer contribuição para o controle da inflação”.

O Globo – 06.02.2020

Em relação à questão da reforma da Previdência quase concluída, perguntado como ela se encaixa nas expectativas dele de uma reforma dessas, Lara Resende afirmou:

“Com o envelhecimento da população e o aumento da expectativa de vida, o sistema previdenciário de repartição se torna deficitário e precisa ser revisto. O problema ocorre no mundo todo, não apenas no Brasil. Além de deficitária, a previdência brasileira é injusta, porque o funcionalismo público, em todos os níveis e nas diferentes esferas do Estado, tem aposentadorias incomparavelmente mais generosas do que o trabalhador do setor privado, que se aposenta pelo INSS, regido pelo RGPS [Regime Geral da Previdência Social]. A atual reforma, focalizada primordialmente no RGPS, além de não constituir uma solução definitiva, não enfrentou o corporativismo do funcionalismo. Manteve seus privilégios praticamente intactos”.

Os jornalistas perguntaram ainda ao economista: Há alguns anos, o senhor se lamentava que a macroeconomia tinha virado uma “área menor da matemática aplicada”, porque não incorporava problemas de ordem social e política. Isto está mudando?

A resposta de Lara Resende foi: “É verdade. A teoria macroeconômica, na busca de se equiparar às ciências da natureza, adotou uma excessiva formalização matemática. Levada ao paroxismo, a macroeconomia hoje ensinada aos alunos de doutorado nas principais universidades americanas, que ainda servem de referência acadêmica, perdeu toda a capacidade de representar a realidade complexa das questões econômicas que são indissociáveis de suas dimensões psicológicas, políticas e sociais. Tornou-se, de fato, uma área menor da matemática aplicada”.

Republico, a seguir, artigo de autoria de (Eduardo José Monteiro da Costa – Doutor em Economia Aplicada pela Unicamp e professor da UFPA. Correio eletrônico: ejmcufpa@gmail.com), publicada no site Conselho Federal de Economia, sobre este novo livro de autoria de Lara Resende:

Deparei-me casualmente com uma entrevista que o economista André Lara Resende concedeu ao jornal Valor Econômico (07/02/2020) sobre o seu mais recente livro, “Consenso e Contrassenso: Por uma Economia Não Dogmática”, lançado pela Portfolio-Penguin. Iniciei uma leitura despretensiosa, mas aos poucos fui fazendo algumas anotações como quem ousava dialogar com o conteúdo do entrevistado. Ao final resolvi sistematizar as anotações dos pontos que mais me chamaram a atenção e torná-las públicas.

 Juros, dívida pública, inflação e crescimento econômico

O ponto de partida da entrevista se dá a partir da constatação de que a política de juros altos, aplicada durante muito tempo no país, não contribuiu para o combate à inflação, tendo um impacto decisivo no aumento da dívida pública e na baixa taxa de crescimento da economia brasileira. Durante muito tempo sempre me manifestei sobre a inexistência de uma explicação teórica consistente sobre a “ilógica lógica” desta política de juros altos praticado pelo Banco Central nos governos de Fernando Henrique, Lula, Dilma e Temer. A política de juros altos, além de frear o volume de investimentos da economia, promoveu o maior programa de transferência de renda do mundo, o “Bolsa Banqueiro”, que canalizou boa parte da poupança pública para fundos financeiros. A ousadia com que o atual governo vem tratando a redução da taxa SELIC demonstra cabalmente que a manipulação das taxas de juros nos governos anteriores era uma opção discricionária de política monetária desatrelada de rebatimentos reais na taxa de inflação, logrando, contudo, consequências sociais desastrosas: baixo crescimento econômico, aumento da dívida pública e desequilíbrio fiscal.

 Ausência de um Projeto de Nação

Lara Resende faz um comparativo entre a China e o Brasil. Segundo ele, enquanto a renda da China é hoje 18 vezes superior ao que era há 40 anos, a do Brasil não alcança o dobro do que era em 1979. Neste ponto é possível destacar que a Nova República, em que pese ter alcançado inúmeras conquistas, sobretudo a retomada do processo democrático, não conseguiu consolidar um Projeto de Nação capaz de ancorar um processo de alargamento das conquistas sociais mediante um processo de crescimento econômico sustentado. Pelo contrário, logrou ao país três décadas perdidas em 40 anos, impedindo a superação do fosso entre o Brasil arcaico e o moderno. Na perspectiva de Lara Resende, com quem eu concordo, boa parte da explicação deste fenômeno decorre de “uma armadilha ideológica imposta pelos cânones de uma teoria macroeconômica anacrônica”. Assim, grupos econômicos e políticos, agindo em conluio, conquistaram por meio do processo democrático a diretriz da condução da política macroeconômica brasileira e agiram em causa própria, sob a desfaçatez de um discurso quase sempre populista e demagogo.

 A necessidade de se repensar o Estado

Em certo momento Lara Resende apresenta aquilo que ele chama de “obsessão com a ideia do equilíbrio orçamentário” que teria ganhado espaço a partir de 2008. O entrevistado está certo quando questiona o problema da contradição da “austeridade expansionista”, não havendo em economia uma relação binária determinística entre variáveis. Ou seja, toda relação depende da análise de seu contexto. Não obstante isso, os diversos equívocos na condução da política macroeconômica (fiscal, monetária e cambial) causaram um desequilíbrio fiscal crônico nas contas públicas de difícil reversão no curto prazo, com a socialização de seu ônus inevitável. Como resultado deste processo assistiu-se nas últimas décadas um aumento dos gastos públicos, ao lado do aumento da carga tributária, sem um debate necessário sobre a qualidade dos gastos. O Estado brasileiro tornou-se agigantado, ineficiente, burocrático e perdulário. Neste contexto, o Estado deixou de servir a sociedade, ao invés disto, a sociedade tornou-se uma serviçal do Estado brasileiro. É nesse contexto que o crescimento do ideal liberal no país trouxe um contraponto mais do que necessário para que se possa repensar adequadamente o Estado em nosso país, por meio de um contraponto ao pseudo keynesianismo, manifesto no populismo fiscal.

 O perigo do “Estado corporativista”

Ao discutir o papel do Estado, Lara Resende adverte para o risco do “Estado corporativista”, que volte a gastar de “forma conspícua, favorecendo a própria corte, a aristocracia e seus ocupantes”. Ou seja, chama a atenção para o perigo do Estado ser novamente sequestrado pelos “donos do poder” ou por agentes da burocracia que acabem defendendo os seus “próprios interesses”. Por outro lado, afirma que: “O que cria mercado competitivo e competente, produtivo, é um Estado competente e com consciência da importância do mercado competitivo”.

Essa afirmação nos permite trazer à tona um debate importante. Sem cair numa visão romântica de que o “mercado” em um país subdesenvolvido irá sozinho gestar um processo virtuoso de desenvolvimento (crescimento com melhoria dos indicadores sociais), também não podemos aceitar a velha e ultrapassada visão de que cabe ao Estado a condução primaz dessa dinâmica. Ou seja, se há uma questão central a ser enfrentada na atual conjuntura é o papel a ser desempenhado pelo Estado. Mais do que nunca precisamos de um Estado que se torne indutor de uma dinâmica de investimento privado autossustentada, fornecendo o ambiente macroeconômico adequado.

 O Estado e a democracia representativa

Ao discutir o papel do Estado, Lara Resende afirma corretamente que o problema do Estado é um problema político. E, no contexto contemporâneo, sobretudo com uma sociedade cada vez mais conectada nas mídias sociais, o controle social e o grau de participação da sociedade nas “agendas públicas” tendem a ser intensificados. É nesse ponto que Lara Resende questiona a viabilidade para a gestão do Estado do processo de “radicalização da democracia”, defendido por algumas correntes progressistas. Conforme afirma o entrevistado: “Questões de Estado são complicadas demais para serem tocadas por assembleias populares”. Esse ponto colocado por Lara Resende reacende o necessário o debate sobre a natureza divergente entre democracia e república.

 Conclusão

Os pontos elencados estão longe de esgotar as questões tratadas por Lara Resende em sua entrevista para o Valor Econômico. A entrevista é mais completa e apresenta uma rica discussão sobre políticas fiscal e monetária, inflação, juros, dívida pública, dentre outras. Contudo, os pontos listados foram os que mais me chamaram atenção.

A partir deste filtro, o posicionamento de Lara Resende merece ser mais bem compreendido, sobretudo pelo fato dele estar corajosamente se posicionando para além das bolhas ideológicas existentes. Autor conceituado como um economista liberal, não apresenta, contudo, uma visão reducionista e romântica da economia, e nem se arvora a uma defesa de uma Estado mínimo na economia. Ao contrário, instrumentaliza e enriquece o debate atual trazendo à baila a necessidade de um amplo e sério debate sobre temas relacionados ao Estado e à gestão de políticas macroeconômicas. É nesse sentido que o livro recentemente lançado “Consenso e Contrassenso: Por uma Economia Não Dogmática”, de sua autoria, merece uma chance de ser mais amplamente conhecido e debatido.