*Por Jayme Vita Roso

vitaroso@vitaroso.com.br

“A rejeição da ciência não está relacionada com o nível educacional, mas com a ideologia”

(Naomi Oreskes[1])

  1. Este ensaio tem como finalidade alertar, conscientizar e convocar os cidadãos brasileiros a agir em defesa da biodiversidade. A cidadania, quando exercida voltada para a preservação das carcomidas “regras pétreas”, manca e necessita de apoio para se manter ereta: está compatibilizada com o mundo contemporâneo e seus ídolos de barro! A cidadania não se restringe ao uso e gozo da biodiversidade, descompromissada com o cotidiano e com o futuro do país, mas de seus cidadãos em todos os rincões dele!
  2. Por isso, cada etapa da biodiversidade faz parte de uma cadeia dos seres vivos e, se falta uma etapa, há interrupção e, isso acontecendo, poderá ocorrer a extinção daqueles seres vivos sob os cuidados do humano!

[1]Disponível em: La Recherche: lesessentiels. L’ultime alerte desscientifiques: La biodiversitéenpéril. n. 32, dezembro de 2019, p. 14-17. Este escrito foi o resultado de pesquisa sobre a transcendência da ética como valor da teologia moral, mas, no campo científico aqui explanado, contou com o primeiro fundamento da preservação derivada da diversidade do ser vivo, na entrevista da professora, bióloga e filósofa, Virginie Maris.Que o crédito lhe seja honrosamente conferido e a seu livro La partsavagedu monde, da editora Seuil, que defende, para o homem, “Habitar melhor a terra em sociedade” para proteger os espaços ainda livres de interferências antrópicas e para preservar a diversidade como potencial impulso  “à nova” evolução dos seres vivos. (N. do A.)

[1] Professora de História das Ciências em Harvard.

            E, antes de mais nada, é obrigatória a reflexão sobre as bases e os fundamentos em que se assentam o conhecimento do que significa a biodiversidade. Aponto alguns dos fundamentos mais significativos:

            2.1. A biodiversidade é uma interdependência de espécies as mais variadas, que podem ir desde árvores (nativas ou não)à centenas de vegetações marinhas, até a inserção do homem com os ecossistemas. Assim por diante e, portanto, cada “departamento” deve ser protegido. Repito: há uma interdependência entre cada “departamento” e os mecanismos de proteção não sobrevivem quando solitários.

            2.1.1. Tudo é concreto, visível e escancarado para o homem cogitar e agir. Antes, repito, o cogitar pode nos levar a procurar esboçar uma filosofia do meio ambiente.

            Pode parecer mero exercício teórico para o homo economicus que se dedica intermitentemente em lucrar sobre tudo que toca. Todavia, a filosofia do meio ambiente não se aparta do homem, porque ele é a causa eficiente de sua degradação (que parte de uma epistemologia ecológica que se aprofunda no âmago das ciências conservacionistas) e vai até a ética do meio ambiente (consentida desde a meramente científica até a teologia moral).

            2.1.2. Advirto que essa reflexão não é e nem está limitada ou circunscrita ao pensamento especulativo, como se ensina no currículo universitário. Não. Ela se relaciona sempre com as pesquisas de campo dos biólogos, por exemplo, que tentam esclarecer para propor solução para algumas espécies introduzidas numa zona e que se adaptam ou convivem com as espécies autóctones.

            A seriedade do assunto é alarmante, tanto quanto a questão antropológica cultural de recepção dos refugiados africanos nos países europeus (que exigem do país acolhedor um aparelhamento técnico especial sanitário, educativo, social, comunicativo, psicológico e profissional), quanto menos poderá acontecer a rejeição deles, como ocorre num transplante malconduzido.

            E, no campo de uma invasão biológica, quanto no campo da recepção dos refugiados, tanto quanto mais dados sejam recolhidos e pesquisados, acredito na predição que não é causa hipotética, mas resulta da percepção dos mecanismos ecológicos ambientais. A sobrevivência exige medidas concretas que não conflituassem com problemas éticos emergentes.

  1. Tendo em conta o que foi abordado, vemo-nos diante de um tríptico de versões possíveis do posicionamento dos interesses humanos frente ao mundo natural: “os interesses humanos são eles os únicos a levar em conta (antropocentrismo)? Merecem os seres sensíveis consideração moral direta e, eventualmente, dever-se-á concordar em dar-lhes direito à vida (patocentrismo)? Ou ainda, sua responsabilidade deve ainda ser superior a entidades supra-individuais, como os ecossistemas ou as espécies (ecocentrismo)?[2]

3.1. Partindo da biodiversidade, “que é a diversidade de quem é vivo em todos os seus níveis de organização”[3], e, em posse deste conceito adotado, que é incompleto, tem-se presente que o pensar a preservação (não basta descrever,digo: controlar, sistematizar em grupos ou espécies etc.) torne-se sumariamente importante,sempre levando em conta o contributo do pensamento ocidental e sua evolução temporal, com todo os seus cambiantes, evoluímos dos três pensamentos supramencionados (antropocentrismo, patocentrismo e ecocentrismo) para cogitarmos que os sociossistemas sejam a via mais coerente diante do que nos confrontamos, ou do que o planeta enfrenta, portanto, eles são “sistemas resultantes da interação entre os seres humano e os seres vivos não-humanos”[4].

3.2. Admitindo-se que a biodiversidade seja um “fato científico” para a comunidade estudiosa do termo e seu significado, didaticamente, surgem disciplinas surpreendentemente inovadoras, seja abrindo vias para a interdisciplinaridade, como propiciando que, entre elas, se admita ou se passe a admitir que o trabalho científico seja coerente com a finalidade que se quer propor. Quiçá, esse esforço poderá dar mais valia ao que é o ser vivo! É o que se admite como cogitação ontológica para colocar na tela o ser vivo, frente à valorização dos ecossistemas com a biodiversidade, no sentido estrito!

  1. A gestão da biodiversidade é recente, pois surge em 1986, e, admitida por consenso e por consciência do seu valor científico, é possível, como está sendo considerado, que a natureza tem valor, muito além do que se cogita e se propaga, pois ela é, se entendida como bem comum, veículo de relevante importância para propiciar que bens e serviços sejam prestados à sociedade.

Inquestionável a importância da necessidade de que os bens e serviços não sejam considerados em termos econômicos rígidos, sem modulações ou benefício técnico-jurídico, mas em favor de políticas públicas coerentes. Afinal, devemos ter sensatez na proteção da natureza!

Para arrematar, a ética ambiental já vem se consolidando com contribuições de filósofos contemporâneos (Anders, Jonas, Dupruy), mas isso é o complemento de uma teologia moral engajadora na valorização da natureza stricto sensu como para a dignidade humana ser consagrada como princípio que fundamenta a própria vida de todos os seres humanos, independentemente.

[1] Professora de História das Ciências em Harvard.

[2] Ibidem, p. 16.

[3]Ibidem, p. 16.

[4]Ibidem, p. 17.


Esse artigo não reflete necessariamente a opinião de MercadoComum