Minas Gerais precisa ter personalidades na governança e no Conselho desta tão prestigiosa companhia.

Por Aguinaldo Diniz Filho

Às voltas com um extenso programa de mudanças em sua gestão estratégica, previsto para acontecer no decorrer deste ano, a Vale, diante das renúncias de Marcio Hamilton Ferreira e Marcelo Labuto a seus cargos no Conselho de Administração da empresa, formalizadas no final do ano passado deverá antecipar o processo de renovação de seu board. Mudanças na alta direção já estavam previstas, porém não seriam para agora, mas para o final de 2020.

Não se trata, porém, de simplesmente substituir os conselheiros que se afastaram: além do que impõe a Lei das Sociedades Anônimas, o próprio estatuto da empresa estabelece que, ao vagarem cadeiras no Conselho – uma única que seja – o organismo, integralmente, precisará ser reformulado por meio de uma nova eleição, a ser feita por voto múltiplo. Neste sistema, a cada ação da companhia correspondem tantos votos quantos sejam os assentos no Conselho.

Mas há também, além do contexto jurídico-legal, um outro, o da oportunidade de, ao ser obrigada a realizar mudanças estratégicas, resgatar uma dívida, já de muitos anos, que a companhia tem para com Minas Gerais: a de ter, em sua governança, a presença de mineiros. Não seria novidade. Mineiros no comando da Vale fazem parte da longa história da companhia, que teve como expoente da sua fundação o empreendedor Eliezer Batista – mineiro – seu presidente por dois mandatos, e, como artífice da sua privatização, ao conduzi-la em anos mais recentes, Wilson Nélio Brumer, outro mineiro. São nomes, entre outros tantos, que foram e são reais motivos de orgulho para a empresa e para o nosso Estado.

Há porém uma outra dívida da companhia para com Minas, esta por razões históricas. A Vale, não custa lembrar, aqui nasceu, cresceu e consolidou-se, o que possibilitou a incrível expansão de sujas atividades para outras regiões do País – Carajás é um exemplo – e para o mundo. Neste âmbito internacional, seu faturamento é o quinto maior do setor minerário, o maior em produção de minério de ferro em pelotas e de níquel. Também diversificou sua atuação, operando nove hidrelétricas em três países ao participar de consórcios de empresas deste setor no Brasil, Canadá e Indonésia. E, além da mineração, atua como grande produtora internacional de manganês, ferroligas, cobre, bauxita, potássio, caulim, alumina e alumínio. Tornou-se, ainda, uma das maiores operadoras de logística do país.

E há ainda, cabe ressaltar, uma dívida por saldar: aquela gerada por duas sucessivas tragédias, a de Mariana e a de Brumadinho, que ceifaram a vida de mais de 400 pessoas – país de família, mulheres e crianças, além de muitos de seus próprios funcionários. Apesar do que a mineradora tem feito em termos de indenizações e reparações, uma única vida perdida, um único lar destruído não têm preço. Acidentes ocorrem, ninguém está livre de tê-los. Mas, por incúria, é imperdoável.

Enfim, as mudanças que ocorrerão na alta direção da Vale são assunto interno da companhia. Mas é preciso que o próximo comando se conscientize de que resultados não são expressos apenas por números. Os sentimentos que pessoas têm a respeito de um empreendimento não se limitam à grandiosidade dos indicadores que são mostrados, nos balanços, aos controladores e investidores. Conta também – e muito – a grandiosidade de uma companhia ao ser, também, humana. A Vale precisa, para isto, lembrar-se de sua origem.

Tudo isto posto, senhores acionistas da Vale, é extremamente importante para a empresa e para Minas que tenhamos personalidades de nosso Estado na governança e no Conselho desta tão prestigiosa companhia.

*Presidente da ACMinas – Associação Comercial e Empresarial de Minas

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da publicação.