Especialistas do mercado financeiro explicam possíveis impactos da vitória de Alberto Fernández e Cristina Kirchner

Em 27 de outubro, as eleições gerais na Argentina, que resultaram na vitória de Alberto Fernández, membro da chapa da ex-presidente Cristina Kirchner, com 48,1% dos votos. Ainda nas primárias, notava-se que seria possível a eleição de Fernández em 1º turno, o que ocasionou um posicionamento negativo do mercado. A Bolsa Merval, por exemplo, chegou a ter uma queda de 38%. Atualmente, após a crise causada pelos resultados das primárias, e agora a eleição de Fernández, questiona-se qual o impacto do resultado das eleições Argentinas nos países vizinhos, como o Brasil.

Para Fernando Bergallo, Diretor de Câmbio da FB Capital, o mercado já havia precificado e mudado os olhos sobre as eleições ainda nas primárias, já que ficou claro que não seria possível uma reeleição de Macri. “O mercado já havia deteriorado a percepção de risco em relação a Argentina lá no começo de agosto, quando ficou bastante claro que Macri não iria se reeleger”. Bergallo pontua que o mercado está receoso em relação às políticas monetárias que Kirchner adotou em seu mandato. “Em síntese, tem-se o receio da implementação de uma política monetária expansionista e intervencionista, característica do regime Kirchner”. O diretor de Câmbio explica que a eleição pode aprofundar a recessão no país e afetar o Brasil. “Isso em tese aprofundaria a recessão na Argentina, causa do impacto nos mercados globais e especificamente no Brasil, pelas fortes relações comerciais dos dois países”, diz Bergallo.

Jefferson Laatus, Estrategista-Chefe do Grupo Laatus, acredita que um grande problema pode ser o choque entre Bolsonaro e Fernández, já que há divergências de ideologias. “Bolsonaro declaradamente desaprova a eleição de Fernández e se recusa até mesmo a parabenizar o novo presidente”. Laatus diz que a eleição é preocupante para o mercado, já que o presidente eleito já declarou interesse em sair do Mercosul. “A vitória da chapa de Fernández é preocupante porque Fernandez declarou anteriormente que sairia do Mercosul”, afirma o Estrategista-Chefe do Grupo Laatus.

Daniela Casabona, sócia-diretora da FB Wealth, afirma que a vitória da chapa de Fernández e Kirchner é um desafio para o governo brasileiro, já que a reação do presidente não foi boa. “A vitória da oposição é mais um desafio que o governo brasileiro irá enfrentar, após a reação de Bolsonaro em dizer que a Argentina escolheu mal e que não iria parabenizar o candidato”. Para Casabona, isso pode impactar as exportações do Brasil, já que a Argentina é um dos países que mais importa produtos brasileiros. “Daqui em diante isto pode impactar nossa economia, dado que exportamos diversos produtos para o país vizinho”.

André Alírio, Economista da Nova Futura Investimentos, afirma que o mercado fica apreensivo com a vitória, já que algumas reformas no país podem ser congeladas. “A leitura do mercado é que com a vitória da chapa que une o kirchnerismo e o peronismo é de uma certa apreensão pelo fato de algumas reformas da argentina não irem para a frente ou diminuir de intensidade”. Alírio explica que a união promovida pela chapa vencedora, na prática, deve manter algumas coisas do governo antigo, ou seja, a vitória não necessariamente simboliza uma ruptura. “Na visão prática, a união entre kirchnerismo e peronismo ele não quer ainda indicar uma ruptura total com as políticas do antigo governo, ou seja, uma guinada assim para o centro esquerda, mas a política não deve ser de rompimento total”, pontua. Alírio afirma que o ponto crucial para o mercado está na escolha do ministro da Economia da Argentina. “O que o mercado foca agora é na escolha do ministro da economia, as negociações de dívida, porém o mercado mantém uma posição defensiva”, finaliza Alírio.