A pergunta de 10 trilhões de dólares: como encerrar uma década perdida de produtividade global
Uma década e 10 trilhões de dólares americanos em estímulo fiscal desde a crise financeira global, o Relatório de Competitividade Global 2019 encontra a maioria das economias ainda travadas em um ciclo de crescimento da produtividade baixo ou plano

As economias que canalizaram investimentos em capital humano, na melhoria das instituições, na capacidade de inovação e dinamismo comercial estarão melhor posicionadas para reavivar a produtividade e suportar um desaceleramento global

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Dez anos após a crise financeira global, a economia global permanece travada em um ciclo de crescimento da produtividade baixo ou estável, apesar da injeção de mais de 10 trilhões de dólares americanos por bancos centrais. Embora estas medidas sem precedentes foram bem-sucedidas para evitar uma recessão mais profunda, não são suficientes por si só para catalisar a alocação de recursos para investimentos potencializadores de produtividade nos setores privado e público. O Relatório de Competitividade Global 2109 aponta o caminho a seguir.

Lançado em 1979, o Relatório de Competitividade Global, fornece uma avaliação anual dos impulsionadores da produtividade e crescimento econômico a longo prazo. A avaliação baseia-se no Índice de Competitividade Global (Global Competitiveness Index -GCI), que mapeia o panorama de competitividade de 141 economias através de 103 indicadores, organizados em 12 pilares. Esses pilares são: Instituições, Infraestrutura; Adoção de TIC; Estabilidade Macroeconômica; Saúde; Habilidades; Mercado de Produtos; Mercado de Trabalho; Sistema Financeiro; Tamanho do Mercado; Dinamismo dos Negócios; e Capacidade de Inovação. Para cada indicador, o Índice utiliza uma escala de 0 a 100, mostrando quão próxima está uma economia do estado ideal ou «na fronteira» de competitividade.

Com um resultado de 84,8 (+1,3), Singapura é a economia mais competitiva do mundo em 2019. Os Estados Unidos continuam uma das economias mais competitivas no mundo, ficando em segundo lugar. Hong Kong (3.º), Países Baixos (4.º) e Suíça (5.º) compõem os top cinco. A média ao longo das 141 economias abrangidas é de 61 pontos, quase 40 pontos até à fronteira. Esta lacuna de competitividade global é ainda mais preocupante agora que a economia global enfrenta a perspectiva de uma desaceleração. O contexto geopolítico em mudança e o aumento das tensões comerciais alimentam a incerteza e podem precipitar uma desaceleração. No entanto, alguns dos melhores desempenhos no Índice de Competitividade Global (ICG) deste ano parecem beneficiar das disputas comerciais através de desvio do comércio, incluindo Singapura (1.º) e Vietnã (67.º), o país com a maior melhoria no Índice deste ano.

“O Índice Global de Competitividade 4.0 fornece uma bússola para o sucesso na nova economia, onde a inovação se torna o principal fator de competitividade. O relatório mostra que os países que integram em suas políticas econômicas uma ênfase em infraestrutura, habilidades, pesquisa e desenvolvimento e apoiam os que foram deixados para trás são mais bem-sucedidos em comparação com aqueles que se concentram apenas nos fatores tradicionais de crescimento”, explica Klaus Schwab, fundador e Presidente Executivo do Fórum Econômico Mundial.

O relatório documenta áreas emergentes de políticas promissoras, reformas e incentivos para construir economias mais sustentáveis e inclusivas. Para gerenciar a transição para uma economia mais sustentável, o Relatório recomenda quatro áreas de ação principais: envolver-se em abertura e colaboração internacional, atualizar impostos e subsídios de carbono, criar incentivos para P&D e implementar aquisições públicas sustentáveis. Para promover a prosperidade compartilhada, o Relatório recomenda quatro áreas de ação: aumentar a igualdade de oportunidades, promover a concorrência leal, atualizar os sistemas tributários e sua composição, bem como medidas de proteção social e promover investimentos que melhorem a competitividade.

Destaques regionais e nacionais

As dez melhores economias do G20 incluem os Estados Unidos (2º), Japão (6º), Alemanha (7º) e Reino Unido (9º), enquanto a Argentina (83º, dois lugares abaixo) é a mais baixa entre os países do G20.

Os Estados Unidos (2º no geral) são os líderes em Europa e América do Norte. Os Estados Unidos continuam sendo uma potência de inovação, ocupando o primeiro lugar no pilar dinamismo dos negócios e o segundo em capacidade de inovação. É seguido pelos Países Baixos (4º), Suíça (5º), Alemanha (7º), Suécia (8º), Reino Unido (9º) e Dinamarca (10º). Entre outras grandes economias da região, o Canadá é 14º, França 15º, Espanha 23º e Itália 30º. Neste bloco, o país que mais se desenvolveu é a Croácia (63º).

A presença de muitos países competitivos no Leste da Ásia-Pacífico torna esta região a mais competitiva do mundo, seguida de perto pela Europa e a América do Norte. Na região Leste da Ásia-Pacífico, Singapura lidera o resultado regional e global graças a um desempenho top 10 em sete dos 12 pilares ICG, incluindo Infraestrutura (95,4), Saúde (100), Mercado de Trabaho (81,2), Sistema Financeiro (91,3), qualidade das instituições públicas (80,4) e tendo a vantagem de ser a economia mais aberta do mundo. Segue-se com Hong Kong (3.º), Japão (6.º), e Coreia (13.º). A China está em 28.º (o mais elevado dos BRICS), enquanto o país que mais subiu na região este ano (Vietnã) está em 67.º. A tabela revela a heterogeneidade do panorama de competitividade regional. Ainda que a região contenha algumas das economias tecnologicamente mais avançadas do mundo, os resultados médios da capacidade inovadora (54,0) e dinamismo comercial (66,1) são relativamente baixos, estando atrás da Europa e da América do Norte.

Na América Latina e Caribe, o Chile (70,5, 33.º) é a economia mais competitiva graças a um contexto macroeconómico estável (1.º, com outras 32 economias) e mercados abertos (68,0, 10.º). Segue-se o México (48.º), o Uruguai (54.º) e a Colômbia (57.º). O Brasil, apesar de ser a melhor economia na região, está em 71.º; enquanto a Venezuela (133.º, descendo seis lugares) e o Haiti (138.º) encerram a classificação regional. A região teve melhorias importantes em muitas áreas, mas continua atrasada em termos de qualidade institucional (o resultado regional médio é 47,1) e capacidade de inovação (34,3), os dois desempenhos regionais mais baixos.

No Oriente Médio e Norte de África, Israel (20.º) e os Emirados Árabes Unidos (25.º) lideram a classificação regional, seguidos pelo Catar (29.º) e a Arábia Saudita (36.º); o Kuwait registrou a maior alta na região (46.º, subindo oito posições) enquanto o Irã (99.º) e o Iémen (140.º) descem alguns lugares. A região melhorou substancialmente na adoção de TIC, e muitos países construíram infraestruturas sólidas. São, no entanto, necessários mais investimentos em capital humano, para transformar os países da região em economias mais inovadoras e criativas.

A classificação em competitividade da Eurásia registra a Federação Russa (43.º) em primeiro lugar, seguindo-se o Cazaquistão (55.º) e o Azerbaijão (58.º), ambos com melhoria de desempenho. Um foco no desenvolvimento financeiro (52,0) e na capacidade de inovação (35,5) ajudaria a região a atingir um desempenho de competitividade mais elevado, e avançar o processo em direção a uma mudança estrutural.

Na Ásia Meridional, a Índia, em 68.º, desce na classificação apesar de um resultado relativamente estável, sobretudo devido a desenvolvimentos mais rápidos de vários países que anteriormente estavam em posições inferiores. Segue-se o Sri Lanka (o país com mais desenvolvimento da região, em 84.º),o Bangladesh (105.º), o Nepal (108.º) e o Paquistão (110.º).

Encabeçada pelas Ilhas Maurício (52.º), a África Subsariana é, globalmente, a região menos competitiva, com 25 das 34 economias avaliadas este ano com resultados inferiores a 50. A África do Sul, o segundo mais competitivo da região, sobe para a 60.ª posição, enquanto a Namíbia (94.º), Ruanda (100.º), Uganda (115.º) e a Guiné (122.º) melhoraram significativamente. Entre as restantes grandes economias da região, o Quenia (95.º) e a Nigéria (116.º) melhoraram também os seus desempenhos, mas perderam algumas posições, ultrapassados por melhorias mais rápidas. Numa nota positiva, dos 25 países que melhoraram o resultado de Saúde em dois pontos ou mais, 14 são da África Subsariana, avançando para eliminar as disparidades na esperança média de vida saudável.

Tendências Globais e Destaques

Além de fornecer uma avaliação anual da saúde das economias a longo prazo, o Relatório também destaca cinco tendências na economia global e suas implicações para os formuladores de políticas econômicas

– Nos últimos dez anos, líderes globais tomaram medidas rápidas para mitigar o pior da crise financeira: mas isso por si só não foi suficiente para impulsionar o crescimento da produtividade.

– Com a política monetária se esgotando, os formuladores de políticas devem revisitar e expandir seu conjunto de ferramentas para incluir uma variedade de ferramentas de políticas fiscais, reformas e incentivos públicos

– A adoção das TIC e a promoção da integração tecnológica são importantes, mas os formuladores de políticas devem, paralelamente, investir no desenvolvimento de habilidades, se quiserem oferecer oportunidades para todos na era da Quarta Revolução Industrial.

– A competitividade ainda é fundamental para melhorar os padrões de vida, mas os formuladores de políticas devem observar a velocidade, a direção e a qualidade do crescimento juntos no início da década de 2020.

– É possível que uma economia seja crescente, inclusiva e ambientalmente sustentável – mas é necessária uma liderança mais visionária para colocar todas as economias em uma trajetória de ganha-ganha-ganha.

Os dados do relatório também mostram crescentes desigualdades na economia global.

– Concentração de mercado: o relatório constata que líderes de negócios nos Estados Unidos, China, Alemanha, França e Reino Unido acreditam que o poder de mercado das empresas líderes se intensificou nos últimos 10 anos.

– Lacuna de habilidades: apenas os Estados Unidos, entre as economias do G7, aparecem entre os 10 melhores na facilidade de encontrar funcionários qualificados. É, de fato, a melhor economia do mundo nessa categoria. Dos outros, o Reino Unido vem em seguida (12º), seguido pela Alemanha (19º), Canadá (20º), França (41º), Japão (54º) e Itália (63º). A China vem em 40º.

– Governança tecnológica: Questionado sobre como as estruturas legais de seu país estão se adaptando aos modelos de negócios digitais, apenas quatro economias do G20 estão entre as vinte principais. Esses são; Estados Unidos (1º), Alemanha (9º), Arábia Saudita (11º) e Reino Unido (15º). A China ocupa o 24º lugar nesta categoria.

“O que mais preocupa hoje é a capacidade reduzida de governos e bancos centrais de usar a política monetária para estimular o crescimento econômico. Isso torna ainda mais importante a adoção de políticas de estímulo de competitividade capazes de aumentar a produtividade, incentivar a mobilidade social e reduzir a desigualdade de renda, disse Saadia Zahidi, chefe do Centro de Nova Economia e Sociedade do Fórum Econômico Mundial.

Sobre o novo Índice de Competitividade Global 4.0

Com base em quatro décadas de experiência em análise comparativa de competitividade, o Índice de Competitividade Global do Fórum Económico Mundial 4.0 é um indicador composto que avalia o conjunto de fatores que determinam o nível de produtividade de uma economia – amplamente considerado o fator determinante mais importante do crescimento a longo prazo.

Plataforma para moldar o futuro da nova economia e sociedade

O Relatório Global de Competitividade é uma publicação emblemática da Plataforma para Moldar o Futuro da Nova Economia e Sociedade do Fórum Econômico Mundial (World Economic Forum´s Platform for Shaping The Future of The New Economy and Society). A plataforma fornece a oportunidade para avançar economias e sociedades prósperas, inclusivas e equitativas. É focada na cocriação de uma nova visão em três áreas interligadas: crescimento e competitividade; educação, competências e trabalho; e igualdade e inclusão. Trabalhando em conjunto, investidores aprofundam a sua compreensão de questões complexas, moldam novos modelos e padrões, e impulsionam ação dimensionável e colaborativa para a mudança sistêmica.

Mais de 100 das empresas líderes mundiais e 100 organizações internacionais da sociedade civil e acadêmicas trabalham atualmente com a Plataforma, para promover novas abordagens à competitividade na economia da Quarta Revolução Industrial; implementar educação e competências para a força laboral de amanhã; construir uma nova agenda em prol dos trabalhadores e dos negócios para o emprego; e integrar a igualdade e a inclusão na nova economia, com o objetivo de alcançar 1 bilhão de pessoas com melhores oportunidades econômicas.