*Por Jayme Vita Roso

O uso dos agrotóxicos registrados, nos últimos anos, demonstra pouca inovação no Brasil, como foi constatado pelo Agrofit[1].

No Brasil, dos 262 registros concedidos este ano, metade são formulações diferentes de apenas 17 moléculas, e “a entrada de mais produtos no mercado também não significa um aumento igual da concorrência”. Os três produtos feitos com abamectina aprovados pertencem à apenas uma empresa, Syngenta. Dos oito formulados à base de 2,4-D, quatro são da Dow. Muitas vezes um produto ganha mais de um registro, pois o pedido foi feito por importadoras diferentes.

Colocados esses pontos, vamos nos reportar a um ensaio publicado pela cientista Barbara Demeneix (1949) na revista La Recherche[2].

Qual a importância deste trabalho da cientista (bióloga, professora e endocrinóloga) para o engajamento na luta contra as substâncias químicas que afetam nosso sistema hormonal?

A autora expõe com vigor que os pesticidas têm tido uma influência perturbante no hormônio tireoidiano, que flui ao bom desenvolvimento do cérebro humano.

Na verdade, mesmo a recente Resolução do Parlamento da União Europeia já definiu que há, comprovadamente, perturbações endócrinas.

Ora, face a baixa geral do consciente intelectual e ao aumento do já largo espectro autista, as substâncias químicas afetam o sistema hormonal do indivíduo assim como elas são semelhantes aos hackers na internet.

A autora mostra que o assunto merece atenção redobrada, pois, nos Estados Unidos, 62 produtos químicos, segundo um estudo de 2011, levaram 1.757 mulheres grávidas ou não a uma alta contaminação da glândula tireoidiana. A vulnerabilidade de produtos químicos nas mulheres é extremamente importante durante os primeiros quatro meses de gestação, fase em que o feto não tem sua própria glândula tireoidiana.

Mesma a resolução de janeiro deste ano do Parlamento Europeu acerca de pesticidas usados na União Europeia (2018/2153(INI)), embora extremamente longa e complexa, não contemplam a proteção esperada e exigida pelos usuários de produtos contaminados.

Deve-se considerar que, nesse campo, tem peso decisivo os fortes interesses econômicos que muitas vezes sobrepassam o respeito à vida humana, como ficou constatado no famoso caso “Monsanto Papers”, no julgado da Corte Superior do Estado da Califórnia, em que o recurso da empresa “sous levè” foi carregado de inquietudes quanto à independência e os conflitos de interesse no processo de avaliação do glifosato. Imaginem que hoje, somente na União Europeia, estão registradas 143.000 substâncias utilizadas em produtos, não usando somente este componente, como também outros.

Mesmo assim, a recente Normativa Europeia não se atém ao que já está autorizado, mas se preocupa seriamente em melhorar os produtos, para que seu verdadeiro objetivo seja realmente atingido.

E nesse arco-íris editou, no mesmo texto adotado, 12 itens sobre a aprovação de substâncias químicas e mais 16 que envolvem a autorização de produtos fitofármacos (ela pede aos fabricantes destes produtos um acesso transparente e equitativo às substâncias ativas no item 112 do texto normativo).

Voltando à Dra. Demeneix, é preciso salientar que ela é uma verdadeira missionária da luta para tentar impedir que as mulheres grávidas, as crianças e os bebês sejam protegidos dos efeitos nocivos das substâncias químicas, para isso, permanecendo muito tempo na cidade de Bruxelas, onde o Parlamento Europeu tem sede, para que os políticos sejam ativos, pois sua militância se assenta na sua objetividade cientifica, além de escrever livros para que o grande público possa se interessar sobre esse assunto.

Ela secunda e acompanha o Conselho Geral de Alimentação, Agricultura e Espaços Rurais, passo a passo e concluiu um relatório de estratégia nacional sobre as perturbações endócrinas e comentou: “Em vista da urgência da situação, foi uma excelente iniciativa (a de regulamentar) e espero que as recomendações sejam seguidas, notadamente naquilo que concerne o amparo às pesquisas sobre as perturbações endócrinas”.

Finalizando, ela incita as mulheres grávidas ou que pretendem ter filhos, de submeter-se a um teste com vista de avaliar a taxa de iodo. Lamentavelmente isso não é sugerido por obstetras, e ainda aconselha que as mulheres nessas condições tomem diariamente multivitamínicos e minerais que contenham 150 ml de iodo.

Mas tudo isso não é suficiente se a legislação não for correta e isenta dos interesses financeiros. A questão também tem que ser divulgada maciçamente, sobretudo para classes sociais menos favorecidas, pois elas devem ser preservadas por uma rígida legislação que as ampare dos interesses econômicos em jogo.

[1] Agrofit/Ministério da Agricultura

[2] Edição de março de 2018, nº 533, p. 5-9

*Por Jayme Vita Roso

vitaroso@vitaroso.com.br


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