• Por José Aparecido Ribeiro

A palavra “MISERÊ” foi repetida nas redações de jornais, rádios, televisões e nas rodas de bares centenas, milhares de vezes nos últimos dias, graças a infeliz declaração de um procurador do Ministério Público Mineiro, insatisfeito com o salário de R$24 mil, que ele acha insuficiente para viver. Salário igual ao de membros do MP de São Paulo que é o Estado mais rico do país vale lembrar. R$24 mil é o salário liquido já descontados todos os impostos, aproximadamente 30%, que no fritar dos ovos, eleva o “MISERÊ” bruto para R$32 mil.

O procurador fez o que era esperado, arranjou uma licença médica e saiu de fininho sem deixar rastros, de certo aconselhado por alguém mais lúcido que percebeu a mancada, pelo menos até que a poeira possa assentar e ele voltar a sua “dura” rotina que pode ser cumprida no conforto do próprio lar, eventualmente em alguma academia da zona sul da capital, 6 horas por dia e no máximo 5 dias por semana. E Isso me faz lembrar o saudoso ex-presidente, ex-senador da República, ex-governador de Minas, Itamar Franco, quando ele conversava ao pé de ouvido com amigos alertando sobre os poderes que a Constituição “Cidadã” de 1988 deu ao Ministério Público: “Vocês estão criando um monstro, uma cobra que vai devorar a própria cauda”…

Não será surpresa se a licença do procurador for remunerada, garantindo seus proventos, sem atrasos nem parcelamentos no final do mês, privilégio que nem todo servidor do Estado possui atualmente. Incluindo os penduricalhos, de acordo com apuração do Jornal Estado de Minas, nos últimos quatro anos, este servidor custou ao Executivo Estadual à bagatela de R$4,7 milhões. A conta de padeiro que aluno de primeiro ano do ensino fundamental sabe fazer revela um salário médio líquido de R$69 mil por mês, já descontados os impostos. Repito, nada mal para quem trabalha 6 horas por dia, cinco dias por semana.

Saindo do lugar comum, vamos lembrar os vários significados da palavra que, se digitada no Google sozinha, vem com fotos e vídeos do procurador Leonardo Azeredo dos Santos: Miserê, um substantivo masculino para miséria. Serve também para classificar uma situação de catástrofe, desgraça. A palavra é bastante utilizada por pagodeiros baianos para caracterizar uma pessoa popular. O mais comum, no entanto, é usá-la para mostrar situação de seca, pobreza, escassez. – Exemplo: “Fui no churrasco do Leonardo Azeredo e tava o maior miserê lá… Não tinha Cristal, só Moet Chandon e Veuve Clicquot”.

Com efeito, muito mais importante do que a palavra que caiu no gosto da opinião pública e dos jornalistas que repetiram milhares de vezes, é o que tem por trás do ato. No áudio de cerca de 1 hora e 40 minutos – retirado da página do MP na internet –, o procurador reclama que teve que cortar gastos para se adequar a um salário de R$ 24 mil mensais (liquido) e pede que a direção do MP encontre meios para reajustar os proventos da categoria. Fala em nome da classe, repare: “Um salário relativamente baixo, sobretudo para quem tem filhos. Como o cara vai viver com 24 mil reais?”, conclui o referido procurador.

Observa-se, também, na mesma gravação, o tom que ele usou para o seu desabafo. Mais do que insatisfeito com a remuneração, Leonardo manifesta-se raivoso, voz embargada e convicção na defesa da necessidade de aumento imediato. Estamos falando de alguém que se mostra desconectado do mundo real. Porém não se trata de qualquer pessoa, e sim de uma autoridade que tem sobre os ombros a tarefa de acusar pessoas ou instituições, em que pese a sua realidade não ser a mesma daqueles que ele pede ação do judiciário, inclusive prisões preventivas sem o devido julgamento ou necessidade.

O referido promotor parece se sentir superior, confessando sua origem e acrescenta, em tom reclamatório, que está sendo obrigado a tomar remédio controlado (centralina) e isso não está sendo suficiente para tranquilizá-lo, e que, portanto, trabalha sem entusiasmo. Nas entrelinhas, mostra que pertence a uma classe “superior” com direitos a privilégios, ancorado no discurso de que estudou muito para passar no concurso, que lhe permite duas férias anuais, 13º e 14º salários, bonificações e um rosário de privilégios que apenas uma casta de servidores públicos pode gozar.

São muitas as revelações na fala de Leonardo Azeredo que, graças à transparência e a liberdade de imprensa, a sociedade pode tomar conhecimento. Embora o MP seja ligado ao Executivo, caminha ao lado do Judiciário, outra instituição que anda na corda bamba quando o assunto é privilégios que possibilitam salários que ultrapassam, mensalmente, R$100 mil em Minas Gerais. Verdadeiro escárnio que precisa de medidas corretivas urgente!

É justo que a recompensa por dedicação e capacidade sejam motivações para salários que lhes permitam conforto. No entanto, em um país de contrastes como o Brasil, o gesto deste promotor deveria acender um alerta para a necessidade de reformas já, e imediatas, na máquina pública, incluindo uma reflexão séria e corajosa sobre a estabilidade empregatícia e vastos outros privilégios que são absolutamente incompatíveis com o momento histórico do país.

*Jornalista – jaribeirobh@gmail.com – 31-99953-7945 – WhatsApp

“Este texto não reflete, necessariamente, a opinião de MercadoComum.”


Esse artigo não reflete necessariamente a opinião de MercadoComum