Fluxo de investimentos genuínos de empresas internacionais para a economia local segue em retração

Os fluxos globais de Investimento Direto Estrangeiro (IDE) estão em declínio nos últimos anos. Estes recuaram para US$ 1,2 tri até o último dado disponível. Trata-se de queda de 36% ante os fluxos de IDE realizados no ano de 2015. Com isso, os fluxos de IDE praticamente retornaram ao nível observado no ano de 2009, logo após a crise financeira global. Entre outros fatores, esse declínio decorreu da reforma do imposto de renda corporativo nos Estados Unidos. Empresas multinacionais norte-americanas embarcaram em um movimento de repatriação de lucros acumulados por suas filiais no exterior. Isso explica porque os investimentos diretos globais encontram-se próximos aos observados há uma década.

Além do condicionante tributário, outros fatores contribuíram para a redução dos fluxos globais de IDE. Aumentaram as incertezas acerca da economia mundial. As perspectivas para a economia global se deterioram por conta de fatores estruturais. Isso inclui fatores políticos, tensões comerciais, o retorno de tendências protecionistas, além de quedas nos retornos do IDE, já evidentes nos últimos cinco anos. Diga-se de passagem, os fatores por trás dessa tendência negativa não estão mudando. Pelo contrário, o cenário persiste negativo para os fluxos de IDE, com reflexos negativos para os ingressos de IDE em economias desenvolvidas e emergentes.

Os ingressos de investimentos diretos no Brasil não constituem exceção. Estes, depois de superarem US$ 100 bi em 2011, somam US$ 60,4 bi nos últimos 12 meses. É verdade que os ingressos de Investimentos Diretos no País (IDP) acumulam US$ 94,9 bi no mesmo período. Mas a diferença entre IDP e IDE, de US$ 34,5 bi, resulta em grande parte ao ingresso de recursos de filiais de empresas brasileiras no exterior para as suas matrizes no Brasil. Ou seja, o fluxo de investimentos genuínos de empresas estrangeiras para a economia brasileira, em retração, acompanha o movimento dos fluxos globais de IDE.

Qual a reação de filiais de empresas estrangeiras no Brasil diante desse contexto? O gráfico abaixo evidencia a estratégia adotada. A renda do investimento direto, em alta, acumula US$ 22,8 bi nos últimos 12 meses. Mesmo com esse crescimento, as remessas de lucros e dividendos e pagamentos de juros de empréstimos intercompanhia para as matrizes decaiu. Por outro lado, aumenta o reinvestimento de lucros. Em resumo, frente à diminuição de novos investimentos de suas matrizes, filiais de empresas estrangeiras no Brasil cada vez mais reinvestem lucros acumulados no país em detrimento de remessas para suas matrizes.

Carta do gestor: Guerra comercial escala e economia mundial já contabiliza prejuízos  

Agosto foi um mês de sensível ampliação de hiato entre os cenários econômicos doméstico e externo. No cenário doméstico, o avanço das reformas e a confirmação da retomada da economia, ainda que lenta, contribuíram para amortecer os impactos negativos vindos do cenário externo. Neste, a tônica foi a escalada da guerra comercial entre os EUA e a China, acompanhada pela continuidade da desaceleração das economias centrais e significativo aumento da aversão ao risco.

No Brasil, em que pese a deterioração nos índices de aprovação ao governo, este vem cumprindo os marcos miliários estabelecidos em seu programa econômico. Na frente das reformas, a da previdência encontra-se no Senado e já aprovada pela Comissão de Constituição e Justiça, com expectativa de aprovação em plenário no segundo turno até a primeira quinzena de outubro.

De acordo com relatório do relator da PEC no Senado, a economia prevista em dez anos será de R$ 870 bilhões, inferior, portanto, à do texto aprovado na Câmara. Entretanto, acordo costurado entre o governo, colégio de líderes e governadores viabilizou a tramitação da chamada PEC paralela, que permitirá a adesão, em tempo hábil, de Estados e Municípios à reforma da previdência, com economias adicionais previstas em, pelo menos, R$ 400 bilhões.

Já se encontram em curso discussões avançadas sobre a reforma tributária. Na economia, destaque para o corte de 0,5% na taxa Selic pelo Banco Central, a retomada da agenda de privatizações, anúncio de novas linhas para o financiamento imobiliário, para a criação de 43.820 postos de trabalho em julho – melhor resultado para o mês desde 2013 – e para o resultado do PIB do segundo trimestre, que cresceu 0,4% sobre o trimestre anterior, superando as projeções. Em linhas gerais, confirmou-se ligeira aceleração e melhora na atividade econômica.

O ambiente no cenário externo, por outro lado, deteriorou-se sensivelmente. São contabilizados os prejuízos ao comércio e ao PIB mundial, decorrentes da escalada da guerra comercial entre EUA e China, após o anúncio de nova rodada de sobretaxas de ambos os lados. A Alemanha, cuja economia é fortemente orientada para exportações e, antes, considerada motor da Zona do Euro, encontra-se em recessão técnica, enquanto todas as demais economias centrais, a exemplo de Estados Unidos, China e Japão vêm confirmando tendência de redução da atividade, embora ainda de forma tímida.

Não obstante, já se atribuem probabilidades de até 40% de uma recessão nos EUA em 2020. A inversão da curva de juros nos EUA – quando as taxas de rendimento dos títulos mais longos negociam abaixo daquelas dos títulos mais curtos – sinaliza nesta direção. Vale dizer, parte dos Treasuries já negociam com taxas reais (descontadas da inflação) de juros negativas, o que leva o estoque de títulos soberanos nesta condição para valores superiores a US$ 20 trilhões.

Esta condição, inédita na história do capitalismo, surgiu primeiramente no Japão, mas após a crise de 2008 e o experimento do Quantitative Easing, generalizou-se nas economias centrais. Considera-se preocupante a persistência desta distorção para o bom funcionamento dos mercados financeiros, uma vez que dificulta – se não inviabiliza – o atingimento de metas atuariais por parte de fundos de pensão e seguradoras, os quais podem agravar eventuais déficits atuariais. Porém, na medida em que os bancos centrais ao redor do mundo sinalizam praticamente de forma coordenada novos ciclos de relaxamento monetário, corremos o risco de aprofundamento deste problema. Como ele será resolvido, apenas o tempo dirá.

Sobre a MAPFRE 
No país desde 1992, a MAPFRE é um grupo multinacional que forma uma das maiores companhias de prestação de serviços nos mercados segurador, financeiro e saúde. Sólida e inovadora, está presente nos cinco continentes e conta com mais de 35 mil colaboradores. Em 2018, suas receitas atingiram cerca de 27 bilhões de euros. Especialista em suas áreas de negócio, a MAPFRE opera com bases de atividades sustentáveis e, no Brasil, atua em seguros, investimentos, consórcios, capitalização, previdência, saúde e assistência. A companhia adota compromissos internacionais como os Princípios para a Sustentabilidade em Seguros (PSI) e integra o Pacto Global da ONU (Organização das Nações Unidas). Também mantém a Fundación MAPFRE, instituição sem fins lucrativos, que promove e investe em pesquisas, estudos e atividades de interesse geral da população.