Os recentes cortes dos juros básicos da economia no Brasil e nos EUA consolidaram a tendência de taxas de captação mais baixas pelos bancos nos principais países do mundo. O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) reduziu a Selic para 6% ao ano com corte de 0,5 ponto percentual e o FED (Federal Reserve), o banco central americano, fixou a nova taxa entre 2% e 2,25% ao ano, 0,25 ponto percentual a menos que a anterior. O juro real brasileiro (Selic menos inflação projetada para 12 meses) ficou abaixo dos 2% ao ano. E nos EUA, o juro real ficou abaixo de 0,5% ao ano. Taxas competitivas em relação ao Japão, por exemplo, que oferece juros negativos nos seus títulos públicos.

Os investidores nos principais ativos de renda fixa como os Certificados de Depósitos Bancários (CDBs), fundos de investimentos financeiros e títulos do Tesouro Direto referenciados na Selic passam a obter imediatamente rendimentos menores nas aplicações futuras.

As cadernetas de poupança que oferecem remuneração correspondente a cerca de 70% da taxa dos Certificados de Depósitos Bancários (CDIs) que acompanham a Selic, também sofreram redução na rentabilidade líquida que oferecem a todos os investidores, a qual é muito atraente para os médios e de pequeno porte que não tem condições de conseguir a taxa cheia ou corresponde à Selic total nos CDBs.

Com a Selic em baixa, era de se esperar que diminuísse o interesse pelo títulos públicos corrigidos por essa taxa. No entanto, o título referenciado pelos juros básicos oferece menores oscilações no curto prazo, e por isto, continua tão procurado quanto o título corrigido pela inflação oficial, o IPCA.

Tradicionalmente logo após o corte da taxa básica, que caiu para o seu menor patamar histórico, os bancos anunciaram pequenos cortes nos juros dos empréstimos. O impacto dos juros menores na economia é pequeno num primeiro momento. Mas os investidores e empresários passam a olhar com melhores olhos a economia real ou produtiva capaz de oferecer os ganhos mais elevados.

Novo comportamento

Ao investidor resta a certeza de que é melhor alongar os prazos das aplicações na renda fixa diante da perspectiva de novos cortes dos juros básicos. O boletim Focus divulgado pelo BC no início de agosto passou a estimar em 5,25% ao ano a Selic do final de 2019. Essa pesquisa feita pela autoridade monetária junto a cem instituições financeiras constatou a previsão de inflação anualizada de 3,80% para dezembro próximo e, em baixa para o mesmo período de 2020, na faixa de 3,50%.

A Selic e inflação em baixa estimulam as aplicações prefixadas e de prazos maiores na renda fixa. Os investidores que não se contentarem com essa rentabilidade menor, devem ficar atentos para não caírem em armadilhas. Vale o conselho: quanto maior a rentabilidade, maior o risco. Corretoras de valores anunciam pela televisão que os Bitcoins oferecem o sonho da rentabilidade nominal de 1% ao dia. Não informam, no entanto, as elevadas oscilações e os riscos desta e de outras criptomoedas.

Em épocas de juros nominais baixos costumam aparecer “salvadores da pátria” que oferecem rentabilidades elevadas no mercado financeiro, nem sempre legais e de alto risco. Mesmo pessoas de elevado poder aquisitivo são às vezes seduzidas por esses espertalhões.

Dólar e ouro

Aplicações em dólar em espécie ou por meio dos fundos cambiais não oferecem boas chances de rentabilidade em um País como o Brasil de economia estabilizada (juros e inflação em baixa e buscando o ajuste fiscal) e mais reservas cambiais de quase US$ 400 bilhões. Além disto, o déficit nominal em transações correntes (todo o movimento com o exterior) previsto em US$ 21,5 bilhões para este ano será coberto facilmente pelo superávit comercial estimado em US$ 52,6 bilhões e a entrada de US$ 85 bilhões em investimentos estrangeiros diretos previstos também para 2019. A situação cambial é tranquila e não passam de desinformados os que falam em saída do capital estrangeiro do País em função do governo Bolsonaro.

O boletim Focus, por exemplo, estima que o dólar comercial feche o ano na faixa de R$ 3,75 e atinja R$ 3,89 ao final de 2.020. No curto e médio prazo, o dólar pode oscilar muito diante de influências internas e externas.

O ouro negociado como ativo financeiro na B3 (antiga BM&FBovespa) sofre influência das cotações do dólar frente ao real e das oscilações do metal no mercado internacional. Ou seja, se o dólar não se valoriza frente ao real, o ouro tem menores chances de render mais.

Cenários versus bolsa

Os cenários da economia brasileira e da mundial influenciam o comportamento de todos os ativos financeiros, especialmente, os das ações emitidas pelas empresas de capital aberto para a captação de recursos a custos menores no mercado e, também, em busca de gestão mais profissional que possa perpetuar ou alongar suas existências.

No cenário externo, geram preocupações a disputa comercial entre EUA e China, a implementação do acordo entre o Mercosul e a Europa, o início dos entendimentos entre nosso País e os americanos para um tratado comercial, disputas no Oriente Médio e até a instabilidade gerada pelos pronunciamentos do presidente Donald Trump. Na América Latina, a grave crise na Venezuela e as dificuldades da econômicas da Argentina também são objetos de preocupação.

No cenário interno, a situação da economia é cada vez mais favorável. Mas, persiste uma preocupação básica: as divergências constantes do presidente Jair Bolsonaro com diversas pessoas sem expressão, jornalistas petistas em fim de carreira, personalidades, entidades e o presidente da OAB Nacional que não representa a categoria dos advogados.

Até o noticiário sério perde. No dia em que ocorreu o massacre dos 58 presos no Pará, 16 dos quais decapitados, a emissora líder em audiência deu mais destaque à versão de Bolsonaro sobre a morte de um militante de esquerda nos anos 70.

Temas de maior interesse ficam em segundo plano na mídia que não divulga a série de acertos e providências econômicas corretas que vem sendo tomadas pelo governo. São raras as entrevistas como a do ministro Tarcísio Freitas, da Infraestrutura, sobre as correções de rumo neste importante setor da economia.

O debate econômico nos últimos meses também ficou restrito à reforma da previdência, enquanto o País se depara com as previsões de crescimento de 0,82% do Produto Interno Bruto (PIB) este ano e de 2,5% de expansão em 2.020.

Mesmo com a queda do desemprego para a faixa de 12 milhões e do total de desalentados e subempregados para menos de 29 milhões, sem o crescimento econômico forte, não será possível o alcance de equilíbrio fiscal expressivo nos próximos anos.

Lucros & dividendos

O registro de novos lucros trimestrais expressivos pelos bancos no segundo trimestre, o resultado recorde de R$ 18 bilhões da Petrobras no mesmo período, a expectativa de a mineradora Vale conseguir superar em médio prazo os estragos do desastre ambiental de Brumadinho, a previsão de a Samarco voltar a operar são alguns fatores que movimentam positivamente o mercado de ações. As companhias do setor de consumo estão otimistas com a retomada das vendas, mesmo com a continuidade do desemprego em patamar elevado.

A queda da Selic estimulou ainda mais as ofertas de ações neste segundo semestre. O total das ofertas do ano pode alcançar o montante de R$ 100 bilhões e representar boas oportunidades para o investidor que quiser entrar no mercado.

Em tempo de renda fixa pagando menor rentabilidade, os dividendos oferecidos pelas companhias, independente das oscilações dos preços de suas ações, tornam-se ainda mais decisivos na escolha das melhores opções na bolsa brasileira. Companhias pagaram dividendos anualizados de até 16% no primeiro semestre como a mineira Direcional. Cemig, MRV, Taesa são outras empresas ligadas a Minas que continuam pagando bons dividendos.

Fernando Soares Rodrigues
Jornalista especializado em economia e finanças