Durante os cinquenta anos vividos em cinco, no meu governo, batalhados dia a dia, sem trégua, a luta que travei visava a evitar outra luta: a guerra fratricida, inevitável quando se trata de implantar pela violência uma nova ordem social e econômica. A minha luta foi diferente porque era a da paz interna, do trabalho, da esperança. Luta que se desenvolveu em todas as frentes da minha administração, alcançando mesmo os mais diversos setores da economia privada, onde o Governo esteve presente com o seu estímulo e a sua confiança. Assim, por exemplo, com a construção de Brasília, meta síntese, passo varonil do País no campo econômico-social, pela dinamização do interior abandonado. Assim, com a política do petróleo, a siderurgia, a abertura das rodovias de integração nacional, a implantação da indústria automobilística, os estaleiros da construção naval, a rede de silos e frigoríficos, os armazéns, a produção de fertilizantes – em resumo, as trinta metas nas quais concentrei a política do desenvolvimento, coroando-a com a criação da SUDENE, estendendo-a ao Continente com a Operação Pan-Americana.

Tacharam-me de otimista. Deram-me os óculos cor de rosa de Pangloss. Não viam, nem podiam ver os destituídos da visão que a política do desenvolvimento, no Brasil, como em todas as nações subdesenvolvidas, não é um fim, mas um meio. Não é o objetivo, é o caminho. Traça-se para atingir a meta real – que é a remoção das diferenças iníquas, a construção de uma sociedade mais justa, de uma convivência mais humana, onde o homem não seja o lobo do homem e onde a sede de inovações, estimulada pelo exemplo das nações mais poderosas, possa ser satisfeita, por uma distribuição equitativa de riquezas, produzidas em paz pelo trabalho coletivo.

Somente os que não podiam ver não viram, há muitos anos, que a insatisfação das massas em nosso país é, e tem sido, um protesto coletivo contra o atraso nacional. Onde não há o que repartir. Mas o trabalhador, afinal, adquiriu consciência dos seus direitos a uma vida digna, à participação justa nos benefícios da civilização. Não se conforma com a marginalidade no caminho da vida, nos confortos do progresso, nas seguranças da saúde, da educação, do teto, do repouso justo no final da vida. Dessa consciência coletiva é que se ergue a insatisfação das massas, que lavra incandescente, no País, deflagrando o conflito entre empregados e patrões e acendendo em seu bojo explosões incontroláveis, e, assim, mais inexoráveis que os engenhos atômicos fabricados pelo próprio homem.

Conclui-se, pois, estes dias conturbados só confundem os olhos daqueles que não querem ver. Não há equações sem solução, não há enigmas indecifráveis, não existem problemas cuja saída única seja despejá-los no caos social.

E os maiores problemas nacionais, nos dias que correm, eu os entendo relacionados com a velocidade do desenvolvimento do Brasil. Não podemos pedir ao homem brasileiro de cada quadrante – ao seringueiro da selva amazônica, ao campeiro das vastidões sulinas, ao proletário da zona centro-leste do País – a milhões e milhões de brasileiros de todos os ofícios e todas as condições, que esperem dezenas de anos pela evolução morosa, que é o modo antigo de progredir, quando outras nações atingiram e estão atingindo o poderio econômico, e exercitam forças crescentes no primeiro plano mundial.

Não podemos pedir – seria inútil – o pedido inatendível que os brasileiros esperem mais alguns decênios por um nível econômico e social que lhes torne a vida mais digna de ser vivida. Ou criamos rapidamente essas condições, num esforço acelerado, pela política de desenvolvimento, por sucessivas contrações de cinquenta anos em cinco, ou a gestação demorada dos benefícios da justiça levará o povo a apressar como quiser a fonte desse fruto. O roteiro para porto seguro, no qual será encontrado o entendimento mútuo, foi o que segui em meu governo: a estrada larga do desenvolvimento. Somente adotando o progresso rápido como forma de pacificação social, construiremos à maneira moderna uma grande nação.

(Texto extraído do livro intitulado “A Marcha do Amanhecer”, de autoria de JK e publicado em 1962)