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Sérgio Agusto | sergioamc@uol.com.br

 

Quando SMA, um amigo meu de vida e de botequim, me perguntou se eu via o programa “Master-chef” na televisão, olhei bem pra cara dele e devolvi a pergunta: “por que?”. Podia ser alguma pegadinha, e… como mineiro não dá rasteira em pé de vento, es-perei a resposta dele. “Eu vi esta semana na TV e achei que tudo aquilo estava armado, uma encenação gros-seira para enganar quem estava vendo”, disse ele, já sabendo que falar bem de programa de culinária na TV comigo é caçar confusão. Mas o meu amigo é mineiro também e sabe que nós só fazemos perguntas cabeludas quando já sabemos a resposta.

Então entramos no papo: culinária na TV. Você sabe quantos programas sobre culinária existem na grade de uma operadora, a Sky, por exemplo? Há dois meses contei 119. Acabo de contar novamente e esse número passou para 131. Certamente são mais de 150, pois não estão incluídos os canais abertos nessa lista.

Deste total, pelo menos 120 são de aulas. Gente de todo tipo ensinando você a cozinhar. “Aulas” de todo tipo. Celebridades que de repente viraram professores capazes de fazer um Molho Pesto com salsinha e farinha de trigo. Há 20 anos, a culinária era assunto uma ou duas vezes por semana, geralmente sábado ou domingo, em canais de São Paulo. Você se lembra da Ofélia. A “Cozinha Maravilhosa da Ofélia”, na TV Bandeirantes. E o “Anonymus Gourmet”, produzido no Rio Grande do Sul. A Ofélia morreu em 1998 e ninguém conseguiu assumir o seu lugar. O Anonymus virou realmente um anônimo nessa floresta de picaretas choferando fogão nesse mundo afora.

Pois estes eram os programas dos anos 80 e 90, vistos por uma minoria que não garantia horário nobre. Hoje, há até um canal exclusivo de culinária, “Food Network” (canal 91), 24hs de coisas horripilantes saindo das panelas dos professores. Nos anos 90, quando começou a exibição de programas do mundo todo, via cabo ou satélite pela Net, DirecTV e Sky, a Discovery tinha alguns programas realmente bons, com chefs de restaurantes famosos ensinando pratos decentes, entre eles o “Sabores da Itália” e “Sabores da França”. Foi através desse canal, o TLC, que conheci as bases da ‘Nouvelle Cuisine”, ditas pelo próprio Paul Bocuse. Hoje, quem da ca-tegoria de Bocuse se arrisca a enfrentar essas feras nos Masterchef da vida?

A necessidade de se inventar pratos e de buscar um holofote com “novidades” tolas levam os apresentadores a cometer erros incríveis na combinação de ingredientes. Depois que Alex Atala levou para a sua despensa produtos do Norte do País (maniçoba, tucupi, jambu, cupuaçu, gurijuba, pacovã – a banana – , guaru-mã, arubé, e outras tantas estrelas de origem indígena) todo cozinheiro novo acha que tem de fazer pratos com algum desses quesitos.

Na TV fica ainda melhor. E os programas ficam uma chatice só. Quem, em sã consciência, consegue ver a Ana Maria Braga cozinhando? E a filha do Gilberto Gil,? Até o ótimo Claude Troigros entrou nessa disputa por audiência e modificou todo o seu estilo de anos atrás, quando ensinava receitas ótimas, e passou a fazer “shows”, com crianças ou cozinheiros amadores.

Quem vê a Bel Coelho percorrendo o Brasil fa-zendo entrevistas em casas de família com cozinheiras amadoras, e não sabe quem é ela, não imagina que Bel é uma grande chef paulista. A Carla Pernambuco, também. Virou até garota propaganda da Friboi e abusa da mania de levar “celebridades” para cozinhar com ela no estúdio. Há uns meses atrás, Pernambuco disse num programa da TV Brasil: “Culinária virou o que o futebol é para o Brasil, isto é, todo mundo enten-de, todo mundo quer ensinar!”. Falou e disse. Só que ela entrou na roda…

Seria muito importante os brasileiros aproveita-rem esse tempo na TV para entrar na gastronomia pro-priamente dita, e não apenas nessa enfadonha mania de ensinar o “cassoulet sem pato”. Culinária é importante, mas a gastronomia é fundamental. Se você quer um exemplo, vejam os programas apresentados pelo francês Gerard Depardieu (GNT-41), o americano Antony Bourdain (TLC-91) e o inglês Ainsley Harryot (TLC): De-pardieu e Ainsley desbravam as raízes dos lugares onde vão; Bourdain descobre os botequins mais domésticos (menos turísticos) das maiores cidades do mundo (ele esteve em BH no ano passado para mostrar a cidade com mais botecos no mundo!!!).

Para falar sobre cozinha não basta ser famoso. Tem de conhecer muito de cozinha, suas origens, equipamentos, ingredientes e todo o seu histórico. Não basta ser curioso em culinária, tem de conhecer gastronomia. As emissoras andam fazendo de tudo para ganhar audiência. Na Internet, os blogs de culinária estão pipocando. Aos poucos a cozinha virou moda e vai ficar por muito tempo na berlinda. Desse jeito, meu amigo SMA encerrou o papo com outra pergunta, que eu passo para você: “será que em mais de 130 programas só uns cinco valem a pena ver?”.