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Por: Fernando Soares Rodrigues

Jornalista especializado em economia e finanças

 

As incertezas quanto ao alcance das metas fiscais perseguidas pelo governo atingiram níveis elevados no início de agosto passado. Com o propósito governamental de se realizar o ajuste em base mais flexível do que se previa no início do ano, o que se pode antever é que vai demorar mais o corte dos gastos públicos necessários ao alcance do equilíbrio fiscal.


O quadro é agravado ainda pela queda da arrecadação e o elevado grau de instabilidade política.


A expectativa de melhora no cenário econômico brasileiro criada pelos titulares dos ministérios da Fazenda e Planejamento do segundo governo Dilma Rousseff no primeiro semestre foi colocado em xeque pelo agravamento da crise política, persistência de déficit orçamentário, inflação rondando o patamar de 10% ao ano, dólar testando a faixa de R$ 4,00 e previsão de retração econômica (queda do PIB) de 2% ou mais.


Avaliação diária
Qualquer posicionamento por mais pragmático que seja quanto à administração de recursos no mercado financeiro torna-se obsoleto no curto prazo. Analistas, gestores de carteiras e investidores são obrigados a reavaliar seus posicionamentos a cada dia ou hora para não serem surpreendidos por fatores adversos difíceis de serem previstos.


O tradicional conselho de se priorizar a aplicação de recursos em ativos financeiros prefixados (taxas antecipadas, por 12 meses, por exemplo) vigente no início de agosto pode ser superado se a inflação ficar mais renitente do que previsto e levar o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central a elevar ainda mais a taxa Selic (juros básicos da economia). Aquele órgão do BC admitiu no início de agosto exclusivamente manter a taxa Selic em 14,25% ao ano, correspondente a juros reais de 8,4% ao ano (Selic menos inflação projetada para os 12 meses).


A inflação elevada e as incertezas econômicas afetam em muito a rentabilidade dos ativos financeiros nos últimos doze meses encerrados em julho passado, segundo levantamento da consultoria Economática. No período, o investidor em caderneta de poupança teve perda real (descontada a inflação) de 1,78%. Torna-se fácil assim entender porque as cadernetas de poupança vêm perdendo sucessivos depósitos. Com dificuldades financeiras, as pessoas sacam os recursos da poupança cujos rendimentos não chegam a recompor a inflação.


O principal índice da BM&F/Bovespa – Bolsa de Valores de São Paulo registrou perda real de 16,84% no mesmo período. Quem aplicou em ativos referenciados pelos Certificados de Depósitos Interbancários, o CDIs, como fundos de investimentos e CDBs conseguiram no máximo ganho real de 2,30% no mesmo período. É preciso descontar desse percentual o Imposto de Renda conforme o prazo da aplicação.


Os ganhos reais elevados também nos 12 meses anteriores a julho passado foram oferecidos pelos fundos cambiais, 36,63%; e pelo ouro negociado como ativo financeiro na BM&F/Bovespa, 17,28%.


Pré-versus pós
Os títulos públicos e papéis privados emitidos pelos bancos (Certificados de Depósitos Bancários-CDBs) com taxas prefixadas ficam realmente atrativos se configurar a queda da inflação para cerca de 5,4% ao ano e da taxa Selic para 12% ao ano em 2016, conforme as estimativas dos principais analistas de mercado consultados no início de agosto pelo boletim Focus do BC. As previsões do Focus ficam obsoletas, no entanto, um dia ou dois após a sua divulgação.


A postura mais conservadora de se aplicar em títulos públicos e CDBs pós-fixados ganham adeptos na medida em que a crise política dificulta ou atrasa o ajuste das contas públicas. Nos CDBs, as taxas mais próximas dos Certificados de Depósitos Interbancários (CDIs) são conseguidas somente por quem aplica recursos mais elevados – entre R$ 100 mil a R$ 500 mil -, dependendo do banco e por prazo maior – um ano, por exemplo. O investidor tem garantia de R$ 250 mil em caso de insolvência da instituição financeira emissora. As taxas maiores são oferecidas geralmente por bancos de menor porte.


Nove entre dez analistas financeiros e jornalistas especializados em economia alardeiam as taxas mais vantajosas oferecidas pelos títulos públicos em relação aos percentuais oferecidos pelas cadernetas de poupança. Eles estimulam os investidores a entrar na internet e a escolherem no site do Tesouro Direto os títulos com taxas mais atrativas, como se não fosse preciso abrir uma conta específica em uma corretora de valores independente ou ligada ao banco.


Poucos explicam que a rentabilidade cheia prometida pelo título público é alcançada sem risco pela aplicação no prazo longo previsto de sua emissão. Ao se resgatar o título público em caso de necessidade nos curto e médio prazos, o investidor pode se deparar com a redução do total aplicado pela “marcação de seu valor a mercado”. Essa redução ocorre justamente em épocas de maior instabilidade político-econômica, quando os fundos estrangeiros sacam recursos aplicados em reais apesar do juro real elevadíssimo praticado no Brasil.


Com a crise política, investidores em geral chegam até a levantar dúvidas sobre a solvência do País, ignorando que a dívida pública correspondente a 63% do Produto Interno Bruto (PIB) poderá atingir na hipótese menos otimista, no máximo a cerca de 70% do PIB nos próximos dois anos.


E o dólar?
A pergunta mais frequente em época de crise refere-se ao comportamento do dólar. Depois da alta nominal de 50,70% da moeda americana frente ao real registrada nos doze meses anteriores a julho passado, existem muitas dúvidas sobre a oportunidade do investimento em fundo cambial ou na moeda americana em espécie como forma de investimento.


Além da crise interna, pressiona a desvalorização do real a perspectiva da alta dos juros básicos nos EUA que oscilam entre 0% e 0,25% ao ano. Recursos aplicados em todo o mundo e no Brasil seriam estimulados a migrar em maior escala para o mercado americano de títulos públicos que é considerado o mais seguro.


Até alcançar a faixa de R$ 2,60 a R$ 2,80, a taxa de dólar no Brasil refletiu a correção pela inflação interna e a americana. Em seguida, a valorização do dólar frente ao real ocorreu devido a diversos fatores que pressionaram a maior procura pela moeda americana, como saques por investidores e fundos estrangeiros.


O governo voltou a realizar a intervir no mercado de câmbio através dos swaps cambiais (espécie de trava através de juros no mercado futuro) quando a moeda americana ameaçou dirigir-se para a faixa de R$ 4,00, mesmo com os juros elevadíssimos internos que deveriam desestimular a saída de dólares e a entrada de recursos externos para se beneficiar da taxa Selic elevada.


A busca por hedge (proteção) em dólar em espécie ou fundo cambial é mais aconselhada por empresas e pessoas que têm dívida na moeda americana ou têm viagem ao exterior marcada para breve. Para os demais, o dólar torna-se opção de risco.


A margem de acerto sobre o comportamento do real frente ao dólar desafia os grandes especialistas em câmbio e comércio exterior. A única certeza é o que a taxa de dólar vigente é a correta segundo as condições específicas do mercado de câmbio em determinado período.  Nada impede que ela recue ou suba mais, se essas condições se alterarem.


O ouro negociado como ativo financeiro na BM&F/Bovespa acumulou alta nominal de 28,49% nos doze meses anteriores a julho passado, e ficou em segundo lugar em rentabilidade no ranking dos ativos, após os fundos cambiais que ofereceram 43,19% (nominal) no mesmo período.
A cotação no ouro segue no Brasil, o valor do metal na Bolsa de Mercadorias de Nova York e a cotação do real frente ao dólar. Assim, como o dólar, o ouro é uma aplicação de risco que se torna reserva de valor em épocas de crise.


Grau de investimento
A simples expectativa de o Brasil perder o grau de investimento (reconhecimento de bom pagador por agência internacional de classificação de risco de crédito) ajuda a derrubar o índice Bovespa. Na medida em que investidores e fundos estrangeiros começam a sacar recursos da bolsa brasileira, as pessoas físicas seguem o mesmo caminho. Os excelentes lucros registrados pelo ItauUnibanco e Bradesco no primeiro semestre, os melhores resultados apresentados pela Vale, o resultado operacional melhor da Petrobras, apesar do lucro modesto, deixam de ser considerados.


Ocorre o “efeito manada” para baixo. Os saques de recursos aplicados nas cinco ações mais negociadas que representam cerca de 30% do Ibovespa, levam a bolsa para baixo. Essas ações mais negociadas são: Petrobras PN, ItauUnibanco PN, Vale PNA, Bradesco PN, Ambeb S/A ON, e Cielo ON. Na medida em que essas ações e mais cinquenta e quatro outras que integram a lista das mais negociadas ficam muito baratas, aumentam as compras, e o Ibovespa sobe em seguida. Essa instabilidade no mercado pode continuar até que perca intensidade a crise atual, avaliam os analistas.


É preciso sempre considerar que o mercado de ações é de risco. Todos podem perder ou ganhar nele no curto, médio e longo prazo. No prazo de um ano, uma determinada ação somando-se sua rentabilidade em bolsa e os dividendos (parcelas do lucro distribuídas) deve oferecer rentabilidade no mínimo equivalente à taxa Selic. Esse é o famoso custo de carregamento de uma ação.


Algumas ações registraram excelentes ganhos no acumulado do ano até julho passado: Tecnosolo PN, 172,8%; Eletropaulo PN, 74,5%; Klabin S/A PN, 46%; Lojas Renner ON, 44,4%; e Fibria ON, 41,08%. Outras ações registraram perdas significativas no mesmo período: BR Pharma ON, -73,7%; Rossi Residencial ON, -70,5%; Gerdau Metalúrgica PN, -68,8%; Gerdau Metalurgia ON, – 64,6%; e Gol PN, -62,6%.